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Outorga do Título de Doutor Honoris Causa - Universidade Federal da Paraíba
Prof.Dr. Wellington Pereira- João Pessoa- 25/02/2005

Ao Professor José Marques de Melo


Panegírico

Prof. Dr. Wellington Pereira.

Esta universidade, criada a partir de um sonho de poucos, mas mantida pelo sonho de muitos; concede o título de Doutor Honoris Causa ao professor José Marques de Melo, ato que a reconduz às tradições universitárias e ao reconhecimento da construção dos saberes.


A trajetória acadêmica do Professor Marques de Melo reflete as inquietações de um pesquisador que na se limitou ao tempo burocrático da vida acadêmica nem se acomodou diante das dificuldades impostas à universidade pública, em períodos nos quais prevaleceram, por ordem de um estado totalitário, prisões e cerceamento da palavra de estudantes e educadoras; muitas vezes retirados dos campi à força.

Marques de Melo, para as novas gerações de professores, alunos, e pesquisadores no campo Comunicação representa esta resistência ao autoritarismo institucional, ou, até mesmo didático-pedagógico, podendo ser considerado um epônimo das pesquisas em Jornalismo e Comunicação nas Américas, quiçá alhures.


Neste ponto, iniciamos, como bem define o ritual, a construção do panegírico, a saudação àqueles que realizam tarefas excepcionais em sociedade. Mas, como nos lembra Guy Debord, o filosofo situacionista francês do Maio de 68: “O panegírico não comporta nem censura nem crítica”. Ele serve para demonstrar, nas academias, o percurso que os homens fazem em torno do saber.

Os homens que constroem as ciências carregam consigo a predileção pelo lúdico, os movimentos das danças de seu povo, o linguajar das ruas de mil infâncias que desembocam, mais tarde, nos laboratórios, nos tubos de ensaio, nas fórmulas matemáticas, na metáfora, a figura de linguagem com a qual os gregos dominaram os mares e diminuíram as distâncias entre as cidades-estado. Por isso, os cientistas também precisam de metáforas.

A obra do professor José Marques de Melo é rica em metáforas, não sentido apenas da transfiguração dos objetos, do deslocamento de conteúdos, mas na significação do ponto que liga conceitos sem fechar a porta (para inverter a lógica simmeliana na Sociologia do Conhecimento).

Em sua capacidade de reunir novas gerações de professores, estudantes e pesquisadores, Marques Melo recupera, na academia, o que o filósofo Nicolau de Cusa tanto almejou: aprender com a coincidência das oposições. Isto faz do nosso professor, mestre e amigo, um dos mais jovens entre os mais jovens de nossos doutores, porque em sua participação em congressos, nos textos escritos para revistas, jornais, sites, na construção de livros, ou mesmo conferências, não valem as diatribes dos que alimentam o saber como arrogância ou moeda de troca. Para ele, vale o diálogo: a capacidade de convencimento que deve brotar da harmonia entre a inteligência e a mobilidade dos conceitos, refutando jogos retóricos vazios. Neste sentido, a escrita de Marques de Melo recupera o lúdico e a acuidade tomados emprestados aos grandes narradores da Cultura Nordestina.

No exercício lúdico de seus ensaios, Marques Melo nos transporta aos escritos de Gilberto Freyre e Paulo Freire. Na agudeza metodológica, a busca pela aproximação exata do objeto de pesquisa, lembrando-nos Josué de Castro. Mas, como bom alagoano, não deixa de lado a angústia intermitente do cultivo da boa palavra, como nos ensinou um outro alagoano: Graciliano Ramos.

Curiosamente, esses matizes da obra e o percurso acadêmico do prof. Marques Melo parecem ter sido ignorados pela Universidade de São Paulo, talvez por falta de habilidades dos herdeiros da intelligentsia européia, e, sabiamente, não refutaram sua obra, como fizeram com a de Gilberto Freyre durante o período que lhes foi conveniente.

Ao construir estudos em áreas inovadoras para os estudos do jornalismo, Marques de Melo conseguiu construir uma base de pesquisa sólida. Neste sentido, tratou de afastar a visão etnocêntrica da cultura e o estereótipo regionalista, ampliando as perspectivas da pesquisa em Comunicação no Brasil e na América Latina.

Uma das contribuições do professor José Marques de Melo foi a recuperação, no âmbito acadêmico, das obras de Danton Jobim, Barbosa Lima Sobrinho, e, espacialmente, Luis Beltrão, demonstrando que não podemos estabelecer fronteiras ideológica no âmbito da pesquisa.

Uma das preocupações do professor José Marques é investigar os fenômenos comunicacionais e as suas relações com a sociedade, enfatizando a leitura pedagógica da mídia.

A partir dos estudos sobre a Comunicação na América Latina, José Marques de Melo ajudou às novas gerações de pesquisadores na criação de métodos e metodologias que pudessem criar uma crítica à mídia brasileira considerando nossas particularidades culturais, nossa vocação a ser um caleidoscópio estético, quiçá, um laboratório da pós-modernidade, como observou o sociólogo francês Michel Maffesoli.

Com a seiva dos escritores neófitos, Marques de Mello, em seu livro, A esfinge midiática (São Paulo: Paulus, 2004) elabora dois conceitos essenciais para compreendermos o campo midiático: exclusão e inclusão comunicacional, que nos põe em sintonia com dois grandes pensadores brasileiros contemporâneos: Celso Furtado e Milton Santos.

A obra do professor José Marques de Melo é vasta. Suas idéias velozes como os versos dos nossos poetas populares, sua paciência para com os jovens pesquisadores tem o espírito dos monacatos sem fugir ao embate, sobretudo quando este não requer persuasão, mas dialética.

E, para não me alongar na saudação e perder o latim, considero que este é um Dies albo notanda lapillo - dia para ser marcado com uma pedrinha branca na memória desta Instituição Federal de Ensino, que pertence ao povo Paraíba e nos honra com este título de Doutor Honoris Causa outorgado ao prof. José Marques de Melo.


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