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Revista Imprensa - Abril 2008 - pag. 88- ISSN 01030655

Cangaceiros: Alegoria Folkmidiática

Lampião e Maria Bonita e corisco e Dadá, assim como outras parelhas menos famosas, são figuras que a mídia entronizou no imaginário brasileiro e que pertencem ao ciclo dos cangaceiros. Bandos armados que intranqüilizaram a vida do sertão nordestino nas décadas de 20-30 do século passado.

Mitificados pela imprensa da época, humanizados posteriormente pelo cinema e glorificados pela literatura de cordel, converteram-se em “celebridades nacionais”. Numa conjuntura em que os valores “politicamente corretos” exalavam aromas filtrados pelos alquimistas de rive gauche, pouco a pouco os cangaceiros assumiram feições de “bandidos sociais”, protetores dos fracos, defensores dos humildes e justiceiros dos oprimidos.

De tal modo foi prosperando a maquiagem folkmidiática que a própria academia, na idade pós-moderna, tolerou a fabricação de alegorias e a divulgação de outras visões,  por vezes distorcidas, do cangaceiro, destinada a nutrir teses, hidratar colóquios e engordar best sellers.

Num movimento contrário, a antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros guiou-se por recordações de infância, restaurando fios da memória sertaneja para tecer uma versão factual e, portanto, mais realista da vida no sertão nordestino. Recorrendo ao método da história oral, ela colheu depoimentos de sobreviventes daqueles tempos avaros, catalogando informações, cotejando versões e confrontando opiniões.

Depois de trinta anos de estudo e pesquisa, Luitgarde desmontou as interpretações mistificadoras e recolocou os fatos no devido lugar. O resultado desse trabalho corajoso e obstinado circulou sob a forma de livro – “A derradeira gesta: Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão” (Rio, Mauad, 2000).

A obra repercutiu mais no exterior, obtendo atenção, principalmente, por parte de pesquisadores europeus e norte-americanos. Sem provocar ala
rdes, conquistou leitores críticos no próprio país.Tanto assim que, esgotada a primeira edição, a Editora Mauad decidiu reeditar o texto, revisto pela autora.
Dentre as reflexões constantes, algumas merecem a atenção dos agentes midiáticos.

Filmes como “O Cangaceiro”(1953) e “Baile Perfumado”(1997) sedimentam o falacioso romantismo do bando de Lampião e diluem a violência típica da ação em favor do culto ao visual.

Livros-reportagem ou dramatizações que tecem a “saga dos cangaceiros” estão, pouco a pouco, sendo desmentidos por novos estudos, que restauram a verdadeira face de seus protagonistas. Ou seja: mostram-nos como delinqüentes que dominaram o cenário nacional acobertados pela ineficácia do Estado e pela cobiça de funcionários corruptos, procurando extorquir as duas partes em litígio.

Não é sem razão que, diante do panorama  conturbado, nutrido pelos estímulos midiáticos, Luitgarde Barros teme o revival da “indústria do cangaço”, configurando uma espécie de “apocalipse globalizado”.

Essa hipótese pode concretizar-se pela “fusão da violência” contemporânea. A fusão da agressão de “exércitos legais invasores” como o terror praticado por “bandos paramilitares” que operam em favelas e outras zonas conflagradas.

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