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"O nepotismo
começou com a colonização"
Odilon Rios - Repórter
Fonte: Gazeta de Alagoas, Maceió, 3/5/2005
O
ALAGOANO JOSÉ MARQUES DE MELO, UM DOS ÍCONES
DO JORNALISMO BRASILEIRO, DIZ QUE O PRINCIPAL PECADO DA IMPRENSA
É NÃO COBRIR A SOCIEDADE COMO UM TODO. "A
IMPRENSA SÓ COBRE A BURGUESIA"
Nascido em Palmeira dos Índios, criado em Santana do
Ipanema e devoto de “padim Ciço”, o jornalista
e professor José Marques de Melo é considerado
um dos ícones do jornalismo brasileiro e referência
na América Latina na área de Comunicação
Social.
Nas
suas contas, publicou mais de 20 livros e “não
sei quantos” artigos em jornais e revistas nacionais
e internacionais sobre a importância do jornalismo na
sociedade, analisando também o senso moral e ético
do profissional. Em seu site (www.marquesdemelo.com.br), está
estampada uma frase, autobiográfica: “Se o jornalista
não for honesto, humilde e persistente, pode ser tentado
a fazer da profissão uma escada para o sucesso fácil
ou decidir pela renúncia precoce.”
O
sertanejo, que já trabalhou na Gazeta de Alagoas (1959)
e no Jornal de Alagoas (1960), esteve há duas semanas
no Estado, participando de um fórum com professores
de jornalismo, e concedeu essa entrevista exclusiva, em que
critica a cobertura dos jornais, analisa a eleição
do papa e pede uma formação “humanista”
aos novos profissionais das redações.
GAZETA
- O presidente do Senado, senador Renan Calheiros (PMDB),
foi eleito recentemente ao cargo falando em desburocratizar
o País e mudar a forma de tramitação
de Medidas Provisórias no Congresso Nacional. Onde
está a separação do discurso eleitoral
e social?
JMM
- Tenho a impressão que estas medidas encontram apoio
na opinião pública. Quem não gostaria
de desburocratizar o País, que já nasceu enraizado
na burocracia? Todo cidadão anseia isso. Temos um sistema
híbrido, entre parlamentarismo e presidencialismo,
em que o presidente é manietado pelas necessidades
de tudo passar pelo Congresso, que por sua vez não
funciona com agilidade. Limitar as medidas provisórias
não pode ser apenas retórica política,
mas negociada para garantir a governabilidade.
GAZETA
- Não há a intenção de "aparecer
bem" na mídia com essas medidas, mesmo que não
sejam colocadas em prática?
JMM
- Isso não é particularidade do senador Renan
Calheiros, mas de todos os políticos nacionais. Eles
disputam espaço na mídia. Os políticos
que não conseguem seus 15 minutos de fama, pelo menos
uma vez por semana, ficam desnivelados em relação
aos seus competidores. Não acho isso ruim, é
saudável, é democracia: quem aparece é
como se estivesse se molhando na chuva. Tem seu lado positivo
e negativo.O
presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti
(PP/PE), acabou sendo "crucificado" na mídia
brasileira por defender o nepotismo.
GAZETA
- A imprensa transformou isso em uma guerra do bem contra
o mal?
JMM - Sim. O que o Severino diz é o que todo político
pratica. Quem conhece a história brasileira sabe que
o nepotismo começou com a colonização.
É uma tradição, mas o problema não
é o nepotismo, mas uma cultura de privilegiados, oligárquica,
em que poucos participam do banquete. O que o Severino Cavalcanti
diz: tudo bem, desde que seja para acabar no Executivo e no
Judiciário também. Na verdade o nepotismo existe
em todas as áreas.
GAZETA
-Ele então é condenado por falar a verdade?
JMM - Não digo isso, mas de modo geral é aquilo
que os políticos pensam. Ele não é diferente.
Os políticos pensam e praticam. A imprensa virou maniqueísta
e ultimamente tem se caracterizado por algumas ondas de colocar
no patíbulo algumas figuras e livrar outras, e isso
é ruim no País porque a imprensa acaba perdendo
a credibilidade.
GAZETA
- Os jornais que cobrem a área política conseguem
deixar de ser "chapa branca" neste caso?
JMM -Depende. Há jornais que conseguem fugir a isso,
mas a tendência, especialmente dos jovens jornalistas,
é ficar de um lado ou do outro e há uma tendência
de “Maria-vai-com-as-outras”, de seguir a corrente,
quando um certo líder da categoria vai em uma direção,
todo mundo vai atrás.
GAZETA–
Por que isso acontece?
JMM -Falta de maturidade da nova geração de
jornalistas. E também o efeito de uma excessiva politização
dos jornalistas. Ela é fundamental no sentido da consciência
do sistema político e não de tomar partido.
GAZETA–
Qual o maior pecado da imprensa brasileira?
JMM - Não cobrir a sociedade como um todo. A imprensa
só cobre a burguesia, o sistema dominante político,
as elites religiosas. As fatias médias da população
ficam completamente desassistidas sob o ponto de vista de
cobertura noticiosa.
GAZETA
- Isso significa que quem aparece mais nos jornais é
a elite brasileira?
JMM - Sim, só que a meu ver isso não exclui
a aristocracia sindical e militante, os movimentos sociais
bem organizados que usam assessorias de imprensa e se projetam
nos jornais e contam com a adesão de jornalistas que
são militantes daqueles movimentos ou contam com a
simpatia deles. Para que mais cobertura como tem o MST [movimento
de sem-terra]? Tem uma excelente cobertura da imprensa.
GAZETA
- Significa que o MST age mais por espetáculo, provocado
pela mídia?
JMM -Não é isso, é uma estratégia
política de constranger os governantes, os que tomam
as decisões. É um movimento político
organizado e que sabe usar a mídia a seu favor.
GAZETA–
Qual o maior pecado do jornalista?
JMM - A parcialidade. O jornalista é um intermediário
de um público que quer conhecer e fontes que querem
se dar a conhecer. Quando se publica uma notícia, deve
ser o mais verdadeiro possível, perseguindo a verdade,
mostrando os diferentes lados dos acontecimentos, dando voz
a diferentes atores e não tomar partido. Se quer tomar
partido, que escreva um artigo.
GAZETA–
A mídia brasileira consegue ser democrática?
JMM - Acho que sim. A mídia brasileira, depois da Constituição
de 1988, vive em um período de maior democracia, com
veículos de diferentes pontos de vista, a imprensa
diária apresenta diferentes aspectos da realidade social.
Talvez o único “senão” disso é
que a grande maioria da população está
excluída da imprensa, o povo se informa por meio do
rádio e da televisão. Isso mina um pouco a concepção
da democracia.
GAZETA–
Como o senhor encara o jornalismo alagoano?
JMM - Comecei a trabalhar em jornalismo na Gazeta de Alagoas
e no extinto Jornal de Alagoas. Acho que a imprensa alagoana
de lá para cá não mudou muito. O mais
brilhante diagnóstico sobre a imprensa alagoana foi
feito por Costa Rêgo [jornalista] no começo do
século: havia jornais demais e com pouca capacidade
de anúncio e geralmente os jornais eram dependentes
dos subsídios públicos.
GAZETA
- Mesmo sob a influência da figura do "coronel",
a imprensa nordestina consegue se sair melhor na cobertura
jornalística em relação à imprensa
nacional?
JMM - Dizer que a imprensa nordestina é diferente do
País é pouca auto-estima. Quem detém
os canais de televisão e as emissoras de rádio?
Mas, quando eles usam a mídia sob seus interesses perdem
a credibilidade.
GAZETA
- Um Conselho de Ética ajudaria a melhorar a qualidade
dos meios de comunicação?
JMM -Acho que o que ajudaria era uma melhor formação
profissional dos jornalistas. Os cursos de jornalismo melhoraram
nos últimos anos, mas existem muitas deficiências
no sentido de criar uma consciência ética nos
jovens jornalistas. E ética não é política
ou ideológica:é comportamento moral diante da
sociedade.
GAZETA–
Ética é conseguida com o diploma?
JMM -Acho que não. O diploma não dá nada.
Têm muitos jornalistas com o diploma e que são
tão despreparados quanto aqueles que querem entrar
na profissão sem ter conhecimento sistemático
do campo. A formação universitária é
um processo de aprendizagem.
GAZETA
- O senhor é a favor do diploma como requisito para
a profissão jornalística?
JMM - Em princípio, sou anticorporativo. O Brasil copiou
uma estrutura que veio do fascismo italiano de [Benito] Mussolini
[ditador italiano], em que todas as corporações
são organizadas e têm o carimbo do Estado, então
não vejo porque seria diferente para o jornalista.
Se o médico precisa do diploma, o advogado etc., não
vejo porque o jornalista não precise ter seu diploma
também.
GAZETA
- O senhor diz que as faculdades de jornalismo melhoraram,
mas possuem deficiências. Como assim?
JMM - Eu acho que as faculdades melhoraram muito. Fiz meu
curso de jornalismo em Pernambuco, me formei em 1964 e hoje
a formação é muito melhor do que a que
eu tive. Mas há muita coisa a ser perseguida. As faculdades,
ao invés de batalharem o diploma, deveriam buscar a
qualidade do ensino. Isso depende muito da cobrança
que os alunos, os professores e a sociedade fazem. As empresas
jornalísticas, ao se preocuparem com a derrubada do
diploma, estão prestando um desserviço à
sociedade e a elas mesmas.
GAZETA
- Na cobertura da morte do papa João Paulo II e na
posse de Bento XVI, a mídia conseguiu quebrar a imagem
da Igreja Católica como instituição imune
a críticas?
JMM - Acho que a televisão fez uma boa cobertura, colocou
diferentes nuances de um mesmo acontecimento. Já os
jornais exageraram um pouco com relação ao papável
brasileiro. Acho que os jornais foram um pouco sensacionalistas.
Eles não procuraram entender a natureza da instituição
eclesial e fazer cobertura que não gerasse falsas expectativas.
Toda a cobertura dos jornais foi em cima de quem seria o papa,
como se eles estivessem cobrindo uma eleição
de vereador ou de prefeito. Em verdade, a Igreja tem uma estrutura
diferente. Faltou aos jornalistas conhecimento sobre a história
da Igreja.
GAZETA–
Faltaria também humildade doprofissional?
JMM - Acho que foi uma ousadia desnecessária, de cobrir
um fato sem antes se munir de um conhecimento adequado. É
o que eu disse ao longo desta entrevista: a formação
dos jornalistas é deficiente e precisaria aumentar
principalmente em cultura geral, humanista.
Acho que as novas gerações não têm
o interesse de continuar lendo, se informando. Um repórter
quando vai ao campo precisa se munir de elementos sobre o
assunto. Um combatente quando vai a campo, arma-se convenientemente.
Geralmente, quando o jornalista cai em campo é de peito
aberto.
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