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Crônica
de tempos amargos: a perigosa apostila sobre a técnica
do lead
Depoimento de José Marques de Melo a Cecília
Figueiredo*
*Entrevista
concedida pelo Professor José Marques de Melo à
jornalista Cecília Figueiredo, que a utilizou com fonte
para a matéria de capa da edição especial
da REVISTA ADUSP sobre o tema "Segredos da Ditadura Militar"
(Revista da Associação dos Docentes da USP,
n. 33, outubro de 2004).
Revista
ADUSP
- Professor, entre os documentos do Dops, existe um pedido
do MEC às diversas agências de inteligência
para obter um histórico de informações
sobre o senhor. O sr. tem conhecimento desse documento, no
qual citam em resposta uma suposta ligação sua
com as Ligas Camponesas e com Miguel Arraes?
JMM
-
Nunca fui informado oficialmente sobre tais diligências
do DOPS ou dos serviços mantidos pelo SNI no Ministério
da Educação. Era fato público e notório
que eu participara da equipe do primeiro governo de Miguel
Arraes, como chefe de gabinete da Secretaria de Educação
e Diretor do Movimento de Cultura Popular, durante o período
1962-1964. Eu havia colaborado com um governo legalmente constituído,
embora deposto pelo golpe militar de 1964.
Naquela ocasião, ocupava função pública
na SUDENE - Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste.
Requisitado pelo Governador Miguel Arraes para trabalhar com
o Secretário de Educação Germano Coelho,
retornei àquela repartição no início
de abril de 1964, onde exerci o cargo de Diretor do Serviço
de Editoração e Divulgação. Transferi-me
em 1966 para São Paulo, depois de haver sido intimado
para depor em vários IPMs, na cidade do Recife, sem
haver sido condenado em nenhum deles.
O ambiente político dominante em todo o Nordeste era
assaz opressivo, o que determinou a migração
de vários colegas da minha geração para
o Sudeste. Meu ingresso nos quadros docentes da USP deu-se
através de concurso público. Pertenci à
equipe de fundadores da Escola de Comunicações
Culturais, onde passei a exercer, desde 1967, o cargo de Diretor
do recém criado Departamento de Jornalismo.
Mas não
me surpreendo que tais investigações tenham
existido, pois fui vítima de intensa perseguição
no âmbito da Universidade de São Paulo desde
1970. Tudo começou quando coordenei a II Semana de
Estudos de Jornalismo, promovida pelo Departamento de Jornalismo
da Escola de Comunicações e Artes, sobre o tema
"Censura e Liberdade de Imprensa".
A decisão
de focalizar esse tema foi tomada coletivamente pelo Conselho
do Departamento, sob a minha presidência, por iniciativa
da representação estudantil. Vivíamos
então a ameaça de censura prévia aos
livros publicados em território nacional, agravando
o controle que o governo militar impusera aos jornais e revistas,
depois da edição do AI-5.
Transmiti
a deliberação do colegiado departamental ao
então Diretor da ECA, Prof. Dr. Antonio Guimarães
Ferri, que a submeteu aos escalões superiores no âmbito
da Reitoria da USP. Concomitantemente, e também por
deliberação departamental, enviei telegrama
ao então Ministro da Justiça, Dr. Alfredo Buzaid,
convidando-o para participar do evento, no sentido de explicar
as motivações da recente legislação
que restaurava a censura à edição de
livros no país.
O Ministro
Buzaid enviou-me telegrama declinando do convite, mas desejando
êxito ao seminário. Enquanto isso, o serviço
de segurança, que funcionava sigilosamente na Reitoria
da USP, chamou o Diretor da ECA e recomendou o cancelamento
da semana de jornalismo. Mas, diante do telegrama recebido
do Ministro da Justiça, que implicitamente autorizara
o evento, o Dr. Ferri lavou as mãos e transferiu ao
Departamento de Jornalismo o ônus da sua manutenção.
O nosso
conselho decidiu por unanimidade realizá-lo tal como
estava programando, mobilizando os jornalistas Julio de Mesquita
Neto (presidente da Associação Interamericana
de Imprensa), Danton Jobim (presidente da Associação
Brasileira de Imprensa), o Cardeal Dom Avelar Brandão
(Bispo responsável na CNBB pelo Departamento de Opinião
Pública), além de outras personalidades expressivas
da vida intelectual brasileira, entre elas os escritores Paulo
Emilio Salles Gomes e Ligia Fagundes Telles.
A presença
de figuras estranhas à comunidade acadêmica,
no Auditório da ECA, indicava que estávamos
sendo observados pelos órgãos de segurança.
Isso se confirmou quando, na semana seguinte ao evento, recebi
a visita de agentes policiais, requisitando as fitas gravadas.
Prevendo aquela possibilidade, havíamos providenciado
cópias dessa documentação, que foi preservada
e mantida até o fim do regime militar, quando publicamos,
anos depois, os anais daquela semana de jornalismo.
Mas,
desde então, fui advertido informalmente de que minha
vida estava sendo vasculhada pelos agentes policiais. Eu sempre
respondi dizendo que nada tinha a temer, por estar desvinculado
de atividades clandestinas. Aliás, esse tipo de intimidação
foi-me reiterada várias vezes, inclusive nos episódios
que marcaram o desligamento arbitrário do Professor
José Freitas Nobre do quadro docente do nosso departamento
e a prisão e posterior demissão do Professor
Thomas Farkas, ensejando atos de resistência simbólica
no âmbito do Curso de Jornalismo.
Mas a
pá de cal foi jogada somente em 1972, quando fui processado
por atividades subversivas, com base no famigerado Decreto
477, editado com a finalidade de enquadrar professores e estudantes
considerados perniciosos ao regime militar. Sintomaticamente
o processo foi aberto logo após a IV Semana de Estudos
de Jornalismo, que havia reunido mais de mil estudantes, procedentes
de todas as regiões brasileiras, para discutir as tendências
do ensino de jornalismo.
Tratou-se
de um processo kafkiano, fundamentado numa apostila produzida
pelos alunos com base numa aula que eu ministrara em 1968
sobre a "técnica do lead". A acusação
era de que eu insuflava, em minhas aulas, os estudantes de
jornalismo contra o regime militar. A comissão processante
da USP me condenou liminarmente, recomendando a demissão
sumária dos quadros docentes da universidade. Mas,
como a decisão final cabia ao Ministro da Educação,
o processo foi enviado a Brasília. Para surpresa dos
meus denunciantes, o Ministro Jarbas Passarinho me absolveu,
garantindo a permanência nos quadros da USP.
Apesar
disso, fui afastado da direção do Departamento
de Jornalismo e impedido burocraticamente de exercer qualquer
representação universitária dentro do
país. Dediquei-me durante todo a ano letivo de 1972
a concluir minha tese de Doutoramento. A defesa ocorreu em
fevereiro de 1973, em solenidade histórica, não
apenas por ter sido o primeiro doutorado em Jornalismo do
Brasil, mas também pela solidariedade recebida de mais
de uma centena de amigos e colegas, que lotaram o auditório
principal da ECA.
Minha
aprovação repercutiu intensamente, sendo noticiada
em jornais e revistas de todo o país, bem como no exterior.
Esse episódio irritou os agentes de segurança
instalados na Reitoria da USP, que temiam meu retorno à
liderança acadêmica no âmbito da Escola
de Comunicações e Artes, pois a instituição
estava em véspera de conquistar sua autonomia, passando
a ter Congregação própria. Fui então
aconselhado a sair do país por algum tempo.
Temeroso
de represálias institucionais, tendo em vista o agravamento
do quadro político nacional, obtive bolsa de estudos
da FAPESP para realizar programa de pós-doutorado na
Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos da América.
Ali permaneci durante um ano, regressando no início
do segundo semestre de 1974. Iniciara normalmente minhas aulas
na pós-graduação, quando fui surpreendido
por um ato unilateral da USP.
A Reitoria
decidira não renovar meu contrato de trabalho, apesar
do compromisso assumido previamente de manter meu vínculo
trabalhista durante dois anos, após o término
do programa de pós-doutorado.
Solicitei
uma entrevista ao então Reitor, Dr. Orlando Marques
Paiva, e este, muito constrangido, recebeu-me reservadamente
em sua residência, alegando que tomara a decisão
pressionado pelos órgãos de segurança
vinculados ao II Exército. Não fui a única
vítima dessa onda de "cassações
brancas", que atingiu vários outros professores
da universidade, demitidos sumariamente, sem direito a defesa
e nem mesmo a indenização trabalhista.
Revista
ADUSP
- Um documento do II Exército, assinado pelo general
Ednardo D'Ávila Mello, datado de maio de 1975, diz:
"Em fins de 1974, alertada pelos órgãos
de segurança, a direção da Escola (USP
no caso) não renovou os contratos dos professores José
Marques de Melo e Paulo Emílio Salles Gomes. Tal atitude
não provocou reação dos professores,
possivelmente por se tratarem de elementos comunistas moderados".
Quais as justificativas apresentadas pela USP para deixar
de efetuar sua contratação e de outros quatro
professores no ano de 1975?
JMM
- Essa informação confirma a interferência
dos órgãos de segurança na gestão
da USP. Tal episódio inscreve-se na conjuntura que
precedeu a prisão e morte do jornalista Wladimir Herzog,
ele também docente do Departamento de Jornalismo da
ECA. No nosso departamento, a primeira vítima foi José
de Freitas Nobre, antigo militante sindical, que exercera
a presidência da Federação Nacional dos
Jornalistas, então exercendo mandato de deputado federal
pelo MDB.
Apesar
de haver obtido autorização expressa do Congresso
Nacional para lecionar na USP, nas noites de sexta-feira,
ele foi impedido pela Reitoria de continuar a docência,
apesar da requisição feita pelo conselho departamental.
Em seguida, veio o caso Thomaz Farkas. Preso e desaparecido
durante várias semanas, sua demissão foi induzida
pelos órgãos de segurança por "justa
causa". Mas isto não se consumou em face da resistência
esboçada pelo nosso conselho departamental, que não
compactuou com a "armação" legalista.
Farkas foi afinal demitido sumariamente por iniciativa da
própria Reitoria.
Na seqüência,
veio o meu processo pelo 477 e a demissão sumária,
depois do pós-doutoramento. A próxima vítima
foi Jair Borin, primeiro ex-aluno da ECA a ser contratado
como docente. Preso e torturado, ele permaneceu no cárcere
por um período significativo. O caso Herzog adquiriu
proporções inesperadas, extrapolando o âmbito
do Departamento de Jornalismo da USP, onde lecionava telejornalismo.
O último
a ser perseguido foi Sinval Medina, reprovado politicamente
no exame de qualificação para o mestrado, medida
que foi usada posteriormente para justificar seu desligamento
do quadro da universidade. Tais fatos culminaram com a greve
decretada pelos estudantes, reivindicando a demissão
do então diretor da ECA, Prof. Dr. Manuel Nunes Dias,
a quem responsabilizavam pelo clima de repressão dominante
na instituição.
Os alunos
perderam o ano letivo e o Diretor permaneceu até o
fim da sua gestão, demonstrando ser autoridade prestigiada
pelo regime militar.
Revista
ADUSP - E o que eles queriam dizer com "tal atitude
(a não renovação do contrato) não
provocou reação dos professores, possivelmente
por se tratarem de elementos comunistas moderados"? O
sr. não questionou o fato de não ser contratado?
JMM
- A reação esboçada foi consentânea
com as possibilidades existentes na ocasião. Vivíamos
um período de endurecimento do regime militar, com
a imprensa censurada e os canais de expressão pública
quase totalmente arrolhados. Lembro, contudo, que as demissões
ocorridas no segundo semestre de 1974, entre as quais se incluiu
a minha, chegaram a ser denunciadas em pequenas notas da imprensa
paulista e em boletins difundidos em círculos restritos
da intelectualidade.
Pessoalmente,
eu protestei, não somente através de requerimentos
protocolados na Reitoria, como através de personalidades
sensibilizadas pelo minha demissão sumária.
O professor Antonio Candido foi uma dessas figuras destemidas.
Ele solicitou entrevista ao Reitor Paiva e dele obteve o compromisso
de que me seria assegurado o direito de defesa. Tanto assim
que o Reitor me recebeu em audiência reservada em sua
casa no bairro da Aclimação.
Chegou
até mesmo a prometer que despacharia o recurso protocolado
na Reitoria. Mas isso nunca ocorreu. Paiva era um reitor fraco,
dominado inteiramente pelo grupo de assessores que praticamente
o mantinha recluso em seu gabinete.
Revista
ADUSP
- O sr. respondeu a algum inquérito policial-militar
(IPM), além do bloqueio de contratação?
Nesse caso, quem o intimou? O sr. chegou a depor?
JMM
- Durante o período posterior ao golpe de 64, quando
ainda residia na cidade do Recife, fui intimado a depor em
vários IPMs. Por ocasião do processo instaurado
na USP, com base no Decreto 477, eu fui intimado pela comissão
processante, depondo formalmente em 1972. Na etapa final do
processo, que tramitou em Brasília, eu sequer fui intimado,
tendo sido beneficiado pela absolvição exarada
pelo Ministro Jarbas Passarinho. Em 1974, não houve
processo formal.
A estratégia
então vigente era a de realizar "cassações
brancas", justamente para não garantir direitos
indenizatórios aos perseguidos. Ela se mostrou eficaz.
Tanto assim que, em 1979, logo após a anistia política,
o Departamento de Jornalismo propôs formalmente a reintegração
de todos os seus docentes vitimados pelo regime militar.
Mas as autoridades da USP escamotearam a reivindicação
dos órgãos colegiados da ECA, reintegrando-nos
através de novos contratos, sem reconhecer o direito
ao tempo em que havíamos permanecido afastados sumariamente.
Essa contagem do tempo da "cassação branca",
para fins exclusivos de aposentadoria, sem qualquer direito
a indenização, foi somente concedida durante
a gestão do Reitor Goldemberg.
Revista
ADUSP
- O sr. sofreu algum tipo de coerção física
como outros colegas?
JMM
- Em abril de 1964 cheguei a ser preso para averiguações
no Recife, mas fui liberado rapidamente depois de depor no
DOPs pernambucano. Em São Paulo não fui vítima
de coerção física como ocorreu com meus
colegas Thomaz Farkas e Jair Borin.
Também
nunca sofri constrangimento por parte dos meus colegas, durante
os episódios vividos entre 1972 e 1974. Ao contrário,
recebi inúmeras manifestações de solidariedade,
inclusive de colegas com os quais não partilhava identidades
políticas. Não posso deixar de registrar que,
depois de "cassado", passei a ser evitado por pessoas
que temiam comprometer-se pela simples saudação
acadêmica.
No território
nacional, como meu nome constasse de uma espécie de
"lista negra" carimbada pelos órgãos
de segurança, fui impedido de proferir conferências,
dar aulas e participar de bancas examinadoras em universidades
públicas. Fui também impedido de ser contratado
para lecionar em universidades privadas que se mostravam dóceis
aos aparatos de segurança mantidos pelo governo militar
no setor universitário.
Revista
ADUSP
- Quando tomou conhecimento da existência da Assessoria
Especial de Segurança e Informações (AESI)?
JMM
- Tomei conhecimento da existência de uma instância
dedicada a segurança e informações na
Reitoria da USP desde 1970, quando do episódio da semana
sobre censura e liberdade de imprensa. Posteriormente ela
se tornou mais visível durante a gestão Nunes
Dias na ECA, quando seus agentes participavam ostensivamente
de decisões estratégicas.
Confesso
que nunca legitimei tais instâncias, recusando-me a
com elas cooperar. Talvez por isso mesmo tenha merecido represálias
dolorosas.
Revista
ADUSP
- O controle ideológico estendia-se também ao
conteúdo dos cursos? De que forma?
JMM
- Esse controle ideológico tornou-se crescente na ECA
depois que a instituição passou a ser dirigida
por Manuel Nunes Dias. Alguns colegas comentavam nos corredores
que foram chamados à diretoria da escola, recebendo
admoestação por incluírem autores marxistas
em suas bibliografias.
Eu mesmo
fui vítima ostensiva desse tipo e controle, recebendo
reprimenda do Dr. Nunes Dias, em minha defesa de doutorado,
por haver citado autores esquerdistas como Nelson Werneck
Sodré. Ele o fez publicamente, na presença de
um auditório constituído por mais de uma centena
de professores e alunos.
Mais
grave do que a censura oficial foi a autocensura a que se
impuseram jovens docentes, eliminando dos seus cursos tópicos
e autores que pudessem serconsiderados perigosos.
Revista
ADUSP
- Sabe-se que o clima de terrorismo de Estado e perseguição
a professores e estudantes se instalou no mesmo período
da tentativa de implantação da reforma universitária.
Que interesses se beneficiavam das ações de
repressão policial e militar dentro da USP?
JMM
- O autoritarismo instaurado no país, a partir de 1964,
fortaleceu grupos e personalidades que se pautavam por condutas
retrógradas e antidemocráticas no espaço
universitário. Não foi incomum que figuras medíocres
tenham se beneficiado do ambiente repressivo para conquistar
posições acadêmicas a que normalmente
não teriam acesso pelo mérito.
"Não
foi incomum que figuras medíocres tenham se beneficiado
do ambiente repressivo para conquistar posições
acadêmicas a que normalmente não teriam acesso
pelo mérito."José Marques de Melo
No bojo
da reforma universitária de 1969 foi sepultada a liberdade
de cátedra, transplantado-se para o nosso país
a dinâmica artificial do departamento, que se ajusta
a uma sociedade aberta como a norte-americana, onde a sociedade
civil tem larga tradição. Aqui, o modelo serviu
de massa de manobra para glorificar os hábeis negociadores
políticos, alguns dos quais protegidos pelo regime
militar, estimulando a fuga de cérebros para instituições
universitárias estrangeiras.
Tanto
assim que muitos catedráticos cassados durante o regime
militar não encontraram ambiente favorável para
retornar a suas instituições de origem, quando
beneficiados pela Anistia de 1979.
Revista
ADUSP
- Com o AI-5 as demissões, aposentadorias e suspensão
das garantias jurídicas ocorriam sem nenhum critério,
também sem direito a qualquer defesa. Houve reação
do sr. e de outros docentes?
JMM
-
A nossa reação e defesa se fizeram dentro dos
limites impostos pela situação repressiva então
vigente. Os canais da legalidade estavam bloqueados. Continuavam
vigentes naturalmente as condições privilegiadas
de quem pertencia a famílias tradicionais ou integrava
grupos poderosos.
Alguns
foram salvos pelas interferências de figuras proeminentes,
que logravam excluí-los das listas de cassações.
Aqueles que ascenderam intelectualmente por mérito
próprio ficaram ao relento, não contando muitas
vezes com o respaldo da própria corporação
acadêmica, tal o temor instaurado pelas forças
repressivas. O "salve-se quem puder" falava mais
alto.
Revista
ADUSP
- Que impressões ficaram-lhe daquele período?
JMM
- Restou-me um sentimento de tristeza pelo retrocesso intelectual
vivenciado. No caso do Departamento de Jornalismo, que ajudei
a fundar, senti grande frustração, ao retornar
com os meus colegas anistiados em 1979, porque tivemos praticamente
que reconstruir as estruturas danificadas pelos simpatizantes
do regime militar, ali entrincheirados.
O que
permaneceu da proposta original do departamento foi preservado
pelo voluntarismo
dos ex-alunos contratados como auxiliares de ensino.
Sem maturidade
suficiente para enfrentar os donos do poder, então
munidos de força institucional, eles ainda não
possuíam competência intelectual para se confrontar
com pessoas que dominavam a retórica da burocracia
hegemônica.
Revista
ADUSP
- O sr. chegou a se pronunciar, denunciar as arbitrariedades
do regime das quais foi vítima quando foi reintegrado
a ECA em 1979? Somente neste ano foi finalmente contratado?
JMM
-
Quando fomos reintegrados em 1979, adotamos uma atitude pró-ativa,
sem revanchismo, radicalismo ou rancor personalista. Tratamos
de reconstruir, com a ajuda e o estímulo dos nossos
ex-alunos e colegas que ali haviam resistido, o edifício
em ruínas. Foi um processo doloroso, até mesmo
porque as estruturas autoritárias permaneciam vigentes
na universidade.
Como
representávamos os tempos que alguns rotularam como
"heróicos" nem sempre fomos acolhidos calorosamente
por alguns setores. Para colegas que haviam conquistado posições
privilegiadas, nosso retorno significava uma ameaça
para sua nova condição.
Em alguns
casos, foi triste constatar que pessoas medíocres preferiam
que tivéssemos permanecido à margem. Por isso
mesmo, alguns cassados da USP optaram pela aposentadoria precoce.
Para
elaborar o seu perfil, por favor me esclareça algumas
informações:
Cargos ocupados atualmente - Na condição de
Professor Emérito da Escola de Comunicações
e Artes coordeno atualmente no Departamento de Jornalismo
da ECA o Grupo de Estudos "Pensamento Jornalístico
Brasileiro", orientando teses de mestrado, doutorado
e pós-doutorado. Além disso, exerço o
cargo de Diretor da Cátedra UNESCO de Comunicação
na Universidade Metodista de São Paulo.
Onde
leciona - Depois que me aposentei na ECA-USP passei a lecionar
no Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da Universidade Metodista de São Paulo, atuando
também como Professor-Visitante em universidades estrangeiras,
como a Universidade do Texas (EUA), a Universidade Nacional
Autônoma do México e a Universidade Autônoma
de Barcelona (Espanha).
Títulos
- Bacharel em Jornalismo (1964), Bacharel em Ciências
Jurídicas e Sociais (1965), Pós-Graduado em
Ciências da Informação Coletiva (1966),
Doutor em Jornalismo (1973), Livre-Docente em Jornalismo (1983),
Professor-Titular de Jornalismo (1987), Catedrático
UNESCO (1992), Thinker Professor (1996), Professor Emérito
(ECA, 2001), Doutor Honoris Causa (UFAL, 2003).
Trabalhos recentes - Publiquei no último biênio
os seguintes livros: Jornalismo Brasileiro (Porto Alegre,
Sulina, 2003), História do Pensamento Comunicacional
(São Paulo, Paulus, 2003) e A Esfinge Midiática
(São Paulo, Paulus, 2004), além das seguintes
reedições: História Social da Imprensa
(Porto Alegre, Editora da PUCRS, 2003) e Jornalismo Opinativo
(Campos do Jordão, Mantiqueira, 2003).
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