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"A universidade nunca aceitou tranqüilamente a formação de jornalistas"

Fonte: Matéria Prima, n. 157,
Jornal-Experimental do Cesumar - Centro Universitário de Maringá, 5/7/2005
Por: Fernanda Schraiber

Para o pesquisador, favorável ao estágio, isso explica a resistência à idéia de ensinar jornalismo em uma redação dinâmica

Para entender melhor a produção e importância de jornais laboratoriais nos cursos de Comunicação Social a reportagem do jornal Matéria Prima procurou há duas semanas o pesquisador e professor José Marques de Melo, atualmente diretor titular da Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento, da Universidade Metodista de São Paulo.

Primeiro doutor em Ciência da Comunicação do Brasil, José Marques de Melo nasceu em 15 de junho de 1943, na cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Iniciou sua carreira como "repórter do interior" e em 1964, com apenas 21 anos, se formou em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco.

Durante a entrevista concedida ao MP, Marques de Melo abordou bastante o meio eletrônico. Explicou as diferentes terminologias que, segundo ele, "são tomadas como sinônimos, ainda que existam diferenças fundamentais, se considerarmos o significado das palavras que elas agregam, em língua inglesa", referindo-se a webjornalismo, ciberjornalismo e jornalismo on-line.

Abordou ainda na entrevista, temas como o estágio, deixando claro que é favorável. "Ele [o estágio] corresponde a uma oportunidade insubstituível de sentir e avaliar como funciona o jornalismo no dia-a-dia, submetido a variáveis que muitas vezes podem ser controladas dos projetos experimentais na academia", afirmou Marques de Melo.

Atualmente o professor também preside a Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da memória da imprensa e a construção da história da mídia no Brasil. Publicou aproximadamente 20 livros e entre suas principais obras, ele mesmo destaca: "Comunicação social: teoria e pesquisa", "Para uma leitura crítica da comunicação", "Jornalismo brasileiro", "A esfinge midiática", "Midiologia para iniciantes", entre outras.

Marques de Melo ingressou na pesquisa muito cedo. Em 1966, o jornalista concluiu sua pós-graduação em Ciência da Informação Coletiva, no Equador. Já em São Paulo, começou a trabalhar no Inese (Instituto de Estudos Sociais e Econômicos), que realizava pesquisas para empresas jornalísticas. Depois disso, lecionou em algumas faculdades de jornalismo de São Paulo.

No primeiro concurso público da USP (Universidade de São Paulo) Marques de Melo entrou, inicialmente, como professor-instrutor, lecionando "Introdução ao Jornalismo". Com 25 anos, ele assumiu a cátedra "Técnica e Prática do Jornalismo" na Escola de Comunicação e Artes da USP.

Recebeu o doutorado em 1973 pela própria USP. Um ano depois, concluiu o pós-doutorado em Comunicação e Desenvolvimento pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Trabalhou em várias áreas do jornalismo, mas conforme ele mesmo ressalta na entrevista, "todo meio de comunicação exige uma linguagem apropriada".

A entrevista com o professor Marques de Melo foi realizada por e-mail. Confira os principais trechos:

O jornalismo, tal como o conhecemos no impresso, no rádio e na TV, está fortemente presente na internet. Como profundo estudioso da comunicação, o senhor diria que neste momento é preciso estabelecer uma linguagem jornalística específica para o meio eletrônico?
JMM - Sem dúvida. Todo novo meio de comunicação exige uma linguagem apropriada. Foi assim da imprensa para o rádio e deste para a televisão. No entanto, o que ocorre inicialmente é uma certa acomodação. O novo meio se apropria da linguagem do seu precedente até que estrutura seu próprio sistema de codificação. Não esqueçamos que o radiojornalismo foi, por exemplo, e durante muito tempo, o "jornal falado". Ou seja, as notícias publicadas no jornal diário eram lidas pelos locutores dos radiojornais. No caso da Internet, a situação é mais complexa, porque se trata de uma mídia para a qual convergem os demais veículos e cujo conteúdo reproduz literalmente as linguagens originais das suas fontes geradoras.

É possível fazer jornalismo com as características do impresso no meio digital?
JMM - Tanto é possível que assim tem sido feito até agora. Mas independentemente da construção de uma linguagem peculiar à Internet, é preciso atentar para a circunstância de que se trata de uma mídia cujo código principal é a palavra. Aí se encontra um elemento que torna a Internet e a imprensa irmãos siameses. No entanto, a Internet tem enorme potencial para o uso de símbolos icônicos, da mesma forma que os jornais (na segunda metade do século X) também se valeram das fotos e ilustrações.

Durante décadas tentou-se reproduzir nos laboratórios acadêmicos, sem muito sucesso, a dinâmica de uma redação de jornal diário. Mas todas as propostas esbarraram principalmente no custo de produção do impresso. A Internet, de certa maneira, reduz drásticamente esse custo. Na sua opinião, poderia ser considerado inovação pedagógica investir em produções com características de impresso nesse meio?
JMM - A tese de que o jornal laboratório com periodicidade diária fracassou deve ser considerada exclusivamente no território brasileiro. Nós nunca, aliás, conseguimos ultrapassar a periodicidade semanal (emblematicamente representada pelo jornal "Rude Ramos", produzido pela UMESP). Mas essa foi uma experiência historicamente vitoriosa nos Estados Unidos. Não esqueçamos que a pioneira Escola de Jornalismo da Universidade de Missouri começou a funcionar, em 1908, publicando o Daily Missourian, produzido pelos alunos de jornalismo, supervisionados pelos respectivos professores. Tal modelo tem sido replicado positivamente em muitas outras universidades. No caso brasileiro, a questão deve ser analisada a partir do fato de que a universidade nunca aceitou tranqüilamente a formação de jornalistas. Isso explica a circunstância de que as autoridades universitárias resistam à idéia de ensinar jornalismo dentro de uma redação viva e dinâmica. Para isso é preciso investir. Não é desta maneira que fazem as faculdades de medicina, respaldadas por hospitais-escolas.

Ciberjornalismo, jornalismo on-line, webjornalismo. Já existe uma definição segura do que representam esses termos ou quem os emprega hoje não tem muita noção do que significam?
JMM - Infelizmente impera no campo das ciências da comunicação uma grande ambigüidade terminológica. Ela é fruto da ausência de uma preocupação sistemática com as questões taxionômicas. Quando não existe consenso, cada um usa o termo que prefere ou adota um novo termo. Mas o que tem ocorrido é na verdade uma reprodução da terminologia corrente em outros países. Com o tempo, chegaremos a uma melhor precisão terminológica. Em relação aos três termos indicados, creio que são tomados como sinônimos, ainda que existam diferenças fundamentais, se considerarmos o significado das palavras que agregam, em língua inglesa. O ciberjornalismo tem significação mais ampla, incluindo todas as manifestações noticiosas de natureza virtual, ou seja, mediadas por suportes cibernéticos. Já webjornalismo, por sua vez, compreende aquelas manifestações informativas que fluem através da web, incluindo os conteúdos armazenados, que funcionam como uma espécie de memória ativa. E jornalismo on-line corresponde ao jornalismo em tempo real, ou seja, aquele jornalismo da Internet dinfundido instantaneamente, em ritmo veloz, pressupondo atualização contínua.

O que tinha em mente o Grupo de Estudos sobre o Pensamento Jornalístico Brasileiro, que o senhor dirige na USP, quando criou o Portal do Jornalismo Brasileiro?
JMM - Quando criei na USP o Grupo de Estudos PJBR e comecei a construir, com a ajuda dos meus alunos, o Portal do Jornalismo Brasileiro, partia da constatação de que as novas gerações de estudantes de jornalismo estão sendo formadas exclusivamente com base, idéias e autores estrangeiros, ignorando completamente o rico pensamento brasileiro nessa área. Procuramos criar um espaço que pudesse contribuir para sintonizar os jornalistas do futuro com aqueles que pensaram criticamente o jornalismo no passado ou que o fazem ainda no presente, em nosso país.

Já é possível avaliar os resultados?
JMM - Ainda é cedo. Mas as primeiras impressões indicam que alguns grupos estudantis foram fisgados pela isca lançada e começam a se nutrir intelectualmente nessas fontes brasileiras. O grande problema é que o projeto não encontrou respaldo institucional e vem sendo feito na base do voluntariado, o que determinada a marcha lenta com que os conteúdos estão sendo inseridos nos diferentes espaços do portal.

No portal há um artigo seu, no qual o senhor menciona um período em que havia a necessidade do estágio nas empresas jornalísticas por conta do "teoricismo das aulas". E hoje, o que mudou?
JMM - Apesar de algumas universidades dinamizarem hoje o ensino de jornalismo, mantendo atividades laboratoriais que estimulam a prática dos alunos, creio que o estágio continua sendo indispensável. Ele corresponde a uma oportunidade insubstituível de sentir e avaliar como funciona o jornalismo no dia-a-dia, submetido a variáveis que muitas vezes podem ser controladas dos projetos experimentais na academia.

Então, sob esse prisma, o senhor é favorável ou não ao estágio em
jornalismo? Por quê?
JMM - Sempre defendi e continuo endossando o estágio profissional nas empresas jornalísticas como forma de imersão dos futuros jornalistas no cotidiano das redações.

O senhor realmente acredita que a "tecnofobia" foi superada e os teóricos não torcem mais tanto o nariz às atividades práticas nos cursos de Comunicação Social?
JMM - A tecnofobia está alicerçada numa variável de natureza cultural. Somos uma sociedade aristocrática que menospreza o trabalho manual e supervaloriza o trabalho intelectual. Daí a recusa à técnica como algo inerente à produção industrial. Assim sendo, espera-se que os egressos da universidade, nas áreas de humanas, não sujem as mãos na produção e portanto não se deixem seduzir pela tecnologia. Mas esse panorama começa a mudar, sobretudo depois da informática, que invade as nossas vidas, exigindo melhor conhecimento das suas potencialidades por parte das gerações emergentes. Essa tendência começa a se refletir também nos cursos de comunicação.

Falando agora em exercício profissional, como o senhor vê a reapresentação à Câmara federal do projeto do deputado Celso Russomano (PP/SP) criando a Ordem dos Jornalistas do Brasil? (O deputado retirou novamente o projeto de Lei 5253/05 dia 15 de junho, mas segundo o próprio Russomano, deve ser reapresentado em breve).
JMM - Sou favorável à existência de um organismo corporativo, destinado a normatizar a profissão. Penso no entanto que deve ser autônomo, não dependente do aparato estatal.

OJB, Conselho Federal de Jornalismo, a profissão caminha, inevitavelmente, para o "pente fino"?
JMM - Acho que a profissão adquiriu maturidade suficiente para se auto-governar. O que faltam são lideranças competentes, capazes de atuar no sentido do consenso. Mas sou otimista e acho que lograremos esse resultado dentro de pouco tempo.

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