|
Jornal
quinzenal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares
da Comunicação
Ano 1, nº.2, São Paulo – SP – Brasil
5 de outubro de 2005
por
Vanessa Portes
Nesta edição o Intercom Notícias entrevistou
um dos mais respeitados nomes da área da comunicação
no Brasil, o Prof. José Marques de Melo. Diretor-executivo
da Cátedra Unesco/Umesp de Comunicação,
presidente da Rede Alfredo de Carvalho, professor titular
e emérito da ECA-USP, primeiro e atual presidente da
Intercom: esses são apenas alguns pontos do seu extenso
currículo na área das Ciências da Comunicação.
Em nossa
entrevista o Prof. Marques de Melo, além de tratar
de temas relativos à Intercom, traça um panorama
sobre os meios de comunicação no Brasil e analisa
os cursos e as tendências das pesquisas em comunicação.
Intercom
Notícias: Considerando que o senhor foi o
primeiro presidente da Intercom e que agora, quase 30 anos
mais tarde, volta a assumir esse cargo, qual é a sua
análise quanto à evolução da Intercom
na área da pesquisa e do ensino em comunicação?
José
Marques de Melo: A Intercom evoluiu consideravelmente,
desempenhando papel decisivo na consolidação
da comunidade brasileira das Ciências da Comunicação
e na sua articulação com as comunidades nacionais
congêneres, bem como na nossa integração
no âmbito da comunidade internacional da área.
A promoção
ininterrupta de congressos nacionais, com periodicidade anual,
tem constituído espaço fértil para a
difusão do conhecimento novo produzido pelas universidades
e centros de pesquisa e para o intercâmbio científico
entre diferentes gerações acadêmicas.
Também tem contribuído para a preservação
da natureza típica daqueles objetos que dão
personalidade singular ao campo científico da comunicação.
Da mesma
forma, vem estimulando debates pluralistas e fomentando a
convivência salutar entre diferentes correntes de pensamento
ou distintas metodologias de observação dos
fenômenos inerentes às relações
humanas ou mediados por suportes tecnológicos de difusão
coletiva. Por outro lado, tem contribuído para a documentação
do saber estocado pelos grupos, núcleos ou mutirões
que se congregam em torno da associação, socializando
os resultados dos seus estudos através de bases de
dados e de publicações especializadas.
IN:
Que crítica o senhor faria, como agente efetivo do
resgate histórico da comunicação, à
evolução dos meios de comunicação
em nosso país?
JMM: A comunicação massiva tem
acompanhado historicamente o ritmo do desenvolvimento sócio-econômico,
demonstrando pujança tecnológica e vigor sócio-cultural,
cobrindo todos os quadrantes do nosso território. No
entanto, seu “calcanhar de aquiles” continua a
ser o elitismo que determina a produção de conteúdos,
uma espécie de miopia cultural a dificultar a inclusão
intelectual daqueles contingentes excluídos do aparato
escolar, que não dispõem de referencial cognitivo
capaz de elucidar os signos emitidos pelas redes de difusão
nacional ou regional. Isso explica a persistência, em
todo o espaço brasileiro, do sistema folkcomunicacional,
catalisador das demandas informativas e diversionais daqueles
bolsões culturalmente marginalizados ou politicamente
oprimidos.
IN: Quais são os principais pontos que irão
nortear a sua gestão à frente da Intercom?
JMM:
Minha gestão à frente da Intercom foi motivada
pela convocação que recebi das diferentes correntes
da nossa vanguarda associativa, no sentido de atualizar historicamente
as metas institucionais, numa conjuntura marcada pela democratização
nacional e pela inserção brasileira na geografia
global. Meu compromisso é o de ser fiel ao legado utópico
da equipe fundadora, em sintonia com as demandas e aspirações
acalentadas pelas gerações emergentes. A diretoria
que presido está empenhada em dinamizar a associação,
intervindo criticamente no debate sobre as políticas
públicas que governam os sistemas nacionais de comunicação
e informação.
IN:
O senhor, como fundador de vários cursos universitários
– entre eles o curso de editoração da
ECA-USP –, que avaliação faz da performance
e do perfil dos principais cursos de graduação
e pós-graduação na área de comunicação
no Brasil?
JMM:
A graduação cresceu exponencialmente,
compreendendo uma rede nacional de aproximadamente 800 carreiras
acadêmicas, que formam jornalistas, publicitários,
radialistas, produtores editoriais, audiovisuais ou digitais,
gestores educomidiáticos, divulgadores científicos,
animadores culturais, persuasores políticos, assessores
organizacionais ou estrategistas mercadológicos.
A pós-graduação
tem se expandido em ritmo menos intensivo, contabilizando
pouco mais de duas dezenas de programas, para preservar os
parâmetros de qualidade hegemônicos no sistema
nacional desse segmento da nossa educação superior.
A expansão da pós-graduação constitui
anseio natural, especialmente das regiões menos aquinhoadas
(Norte, Centro-oeste e Nordeste), da mesma forma que são
justas as expectativas do setor produtivo e da sociedade civil
no sentido de tornar os projetos pedagógicos dos cursos
de graduação e as linhas de pesquisas dos programas
de pós-graduação mais sintonizados com
as demandas coletivas e as prioridades nacionais.
IN:
Quais são as principais tendências das pesquisas
em Ciências da Comunicação atualmente?
JMM: A tendência evidente caracteriza-se
pela atomização dos objetos de pesquisa nos
programas de pós-graduação, bem como
pela preferência que os jovens pesquisadores atribuem
aos processos de comunicação digital, particularmente
aqueles mediados pela Internet.
Entretanto,
esta impressão carece de fundamentação
empírica, tendo em vista a ausência de registros
quantitativos sobre a nossa produção científica
e a lacuna de estudos holísticos sobre o campo comunicacional.
Registrar, quantificar, qualificar e construir indicadores
sobre as Ciências da Comunicação constitui
inegavelmente uma das fragilidades da área, o que talvez
explique o pequeno volume de recursos carreados para as nossas
pesquisas. Sem argumentos consistentes sobre a sua utilidade
para o desenvolvimento nacional, que sejam capazes de convencer
os tomadores de decisões ancorados nas agências
públicas de fomento científico, a pesquisa em
comunicação corre o risco de atrofiar-se, deixando
de avançar metodologicamente.
|