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40 ANOS
DE JORNALISMO
PCLA - Volume 1 - número 3: abril /
maio / junho 2000
Boanerges
Lopes e Luciana Gomes - Universidade Gama Filho - RJ - Brasil
Entrevista concedida via email
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Quando começou seu interesse pela pesquisa jornalística?
JMM - Meu interesse pela pesquisa em jornalismo começou
durante a minha fase estudantil. Ou seja, quando aluno do
curso de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco
fui estimulado a pesquisar os fenômenos jornalísticos
pelo meu mestre Luiz Beltrão. Assinei com ele meu primeiro
artigo científico, dedicado à crônica
policial na imprensa do Recife e publicado na revista "Comunicações
& Problemas", o primeiro periódico brasileiro
da área de ciências da comunicação.
- Quantas publicações tem e quais
são as mais lidas? Tem alguma que te orgulha mais?
JMM - Publiquei 20 livros e organizei 40 coletâneas.
A lista dessas publicações está no perfil
bio-bliográfico incluído no meu livro "Teoria
da Comunicação: paradigmas latino-americanos".
Tenho orgulho de todos eles, pois representam momentos singulares
da minha trajetória intelectual. Contudo, os mais significativos
do ponto de vista bibliográfico na área do Jornalismo
são: "Estudos de Jornalismo Comparado" (São
Paulo, Pioneira, 1972), "Sociologia da Imprensa Brasileira"
(Petrópolis, Vozes, 1974) e "A Opinião
no Jornalismo Brasileiro" (Petrópolis, Vozes,
1985).
- O que o jornalismo brasileiro tem de bom e o
que tem de ruim?
JMM - De bom, o jornalismo brasileiro tem a capacidade antropofágica,
ou melhor, a vocação mestiça, de assimilar
modelos forâneos e adaptá-los às demandas
e singularidades nacionais. De ruim, tem o vício da
superficialidade e da irresponsabilidade, seja difundindo
fatos sem aprofundamento, seja divulgando versões sem
apuração correta.
- Como você encara a formação
do jovem jornalista hoje? O que deixaria de mensagem para
os que começam a carreira agora? A universidade tem
cumprido seu papel na formação desses jovens?
JMM - Os jovens jornalistas possuem hoje uma melhor formação
porque passam pela universidade, onde adquirem conhecimentos
culturais, técnicos e científicos sobre a profissão.
No entanto, são vítimas do atual estágio
da universidade brasileira, que explodiu quantitativamente
e implodiu qualitativamente. De qualquer maneira, os mais
talentosos e os que possuem vocação profissional
buscam superar tais deficiências, estocando conhecimentos
que lhes garantem sucesso ocupacional e recompensa intelectual.
- Quem você tem como espelho? Alguém
impulsionou sua carreira?
JMM - Eu aprendi a fazer jornalismo antes de ingressar na
universidade. Meu primeiro editor, o jornalista Carvalho Veras,
no tempo em que trabalhava no "Jornal de Alagoas"
deu-me as lições básicas. Procurei suprí-las
e ampliá-las lendo a bibliografia disponível
no Brasil. Depois, fiz o curso superior de Jornalismo na Universidade
Católica de Pernambuco. Ali completei minha formação
teórica com os ensinamentos de Luiz Beltrão.
Mas não os considerei suficientes. Procurei atualizar-me.
Por um lado, continuei tomando lições práticas.
Aprendi muito com Mucio Borges da Fonseca e Milton Coelho
da Graça, quando trabalhei na edição
nordestina do jornal "Última Hora", editada
na cidade do Recife. E procurei acompanhar o trabalho dos
grandes jornalistas da minha juventude, como por exemplo Edmar
Morel, David Nasser, Assis Chateubriand, Barbosa Lima Sobrinho.
Também enveredei pelos clássicos do jornalismo,
lendo autores nacionais e estrangeiros.
- Atualmente, o que faz em relação
ao jornalismo? Alguma pesquisa nova?
JMM - Continuo atuando nas duas fronteiras do jornalismo.
Como profissional, mantenho a coluna Campus na revista IMPRENSA.
Como pesquisador, estou desvendando a trajetória jornalística
do primeiro professor de jornalismo do Brasil, Costa Rego,
que foi editor do "Correio da Manhã", na
primeira metade do século passado. Comecei também
a pesquisar o protagonismo de Hipólito José
da Costa como precursor do jornalismo científico brasileiro.
- Ao longo de sua carreira, se especializou em
algum assunto? Qual?
JMM - Minha carreira teve um certo determinismo "orteguiano"
(Ortega y Gasset, filósofo espanhol). Ela foi motivada
pelas "circunstâncias" com que me deparei,
enfrentando-as com bonomia e ousadia. Esse traço foi
notado, com perspicácia por Luiz Beltrão, no
prefácio que ele escreveu para o meu livro "Sociologia
da Imprensa Brasileira", quando estabelece conexões
entre a minha origem "sertaneja" e a minha "valentia"
acadêmica. Pois bem, eu abri muitos "caminhos"
no campo comunicacional, sem oportunidade para me dedicar
em particular a um deles, até mesmo pela minha disposição
de formar equipes, incentivando os mais jovens a pesquisar
e em alguns casos a ceder-lhes objetos de estudos para os
quais os motivei. Agora, na minha fase de maturidade, procuro
recuperar o tempo perdido. Dedico-me a um objeto concreto,
apesar de polifacetado, que é a construção
da memória histórica do pensamento comunicacional
na América Latina, particularmente no Brasil.
- Quais foram suas maiores descobertas no jornalismo?
JMM - A primeira evidência que demonstrei academicamente
foi a de que o Brasil ingressou de modo tardio na civilização
jornalística (três séculos depois da Europa)
não por maldade dos nossos colonizadores, como defende
a história oficial, mas em decorrência das nossa
formação sócio-cultural, que reprimiu
as demandas nacionais pela informação impressa,
retardando desta maneira a produção de jornais
e revistas. Trabalhei com esse objeto na minha tese de doutorado,
defendida na USP em 1973. Dediquei-me posteriormente ao estudo
da natureza do jornalismo praticado no Brasil, identificando
seus gêneros, formatos e tipos. Chequei à conclusão
de que o jornalismo brasileiro transplanta os modelos e padrões
das culturas com as quais nos defrontamos historicamente (lusitana,
francesa, inglesa, norte-americana) sem reproduzí-las.
Ao contrário, trata de domesticá-las, nacionalizá-las,
hibridizando-as. Ou seja, opera criativamente, produzindo
novas formas de expressão jornalística, sintonizadas
com os padrões hegemônicos, mas suficientemente
autônomas em relação a eles. Esta é
a constatação apresentada em minha tese de livre-docência
(1984).
- Como o jornalismo brasileiro está frente
ao jornalismo americano?
JMM - Ambos são jornalismos dinâmicos, construindo
identidades consentâneas com as respectivas tradições
culturais. O jornalismo americano tem mais tradição
de independência, vertente que a imprensa brasileira
procura acompanhar. Por sua vez, o jornalismo brasileiro exercita
maior criatividade, removendo as fronteiras entre informação
e diversão, combinando humorismo opinativo e seriedade
noticiosa.
- Qual sua opinião sobre o jornalismo investigativo,
como o que ocorre no programa "Linha Direta"?
JMM - Trata-se de uma tendência jornalística
que corresponde ao momento de vazio democrático que
experimenta o Brasil. Como a justiça é falha
e lenta, o jornalismo tenta ocupar o espaço deixado
pelo poder judiciário. Trata-se, contudo, de precedente
perigoso, pois à imprensa cabe informar e não
agir. Existe aí o perigo da hipertrofia noticiosa,
passando o jornalismo da observação, registro
e interpretação dos fatos para atuar como indutor
e justiceiro.
- O que tem realizado na USP?
JMM - Desde 1993 estou aposentado na USP. Trabalho atualmente
na Universidade Metodista de São Paulo, onde sou Titular
da Cátedra UNESCO de Comunicação. Ali
venho realizando pesquisas sobre a identidade da imprensa
brasileira e sobre a identidade cultural brasileira a partir
de imagens midiáticas disseminadas paradigmaticamente
(como o Natal e o Carnaval).
- Que trabalhos já realizou no Rio de Janeiro?
JMM - Realizei algumas pesquisas cujos objetos também
contemplaram variáveis cariocas. Na década de
70, comparei a violência na agenda de jornais paulistas
e cariocas. Voltei a analisar comparativamente a imprensa
das duas cidades nos anos 80, procurando saber quando a ciência
se convertia em notícia. Na década de 90, estudei
as imagens do Natal e do Carnaval na imprensa no Rio de Janeiro,
como parte de projetos que avaliaram toda a imprensa nacional.
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