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Comunicação para o Desenvolvimento Regional

Entrevista concedida ao Prof. Cidoval Morais de Sousa

Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional

V.1 n.2, mai-ago/2005

RBGDR- Que avalíação o senhor faz da pesquísa em comunicação regional no Brasil?
JMM - Trata-se de objeto ainda pouco explorado em nosso país. Tenho a impressão de que os pesquisadores da área cultivam certo preconceito a propósito do fenômeno e consequentemente o relegam a plano secundário na agenda investigativa. Felizmente o panorama começa a mudar. Universidades como a UNITAU e a UMESP começam a valorizar tais estudos, estimulando projetos e apoiando publicações.

RBGDR- Que preocupações e tendêncías a pesquisa em comunicação regional tem agendado?
JMM - Os principais estudos são de caráter histórico, resgatando a memória de jornais e jornalistas. Uma nova tendência é a que focaliza a relação entre regional e global.

RBGDR- Já se pode falar, pela produção que o senhor conhece e acompanha em uma "escola brasileira" (ou "escolas") de estudo em comunicação regional?
JMM -Acredito que ainda não existe um modo brasileiro de produzir conhecimento sobre comunicação ou sobre a comunicação regional. As ousadias de pioneiros como Carlos Rizzini, Luiz Beltrão ou Danton Jobim não repercutiram nas novas gerações. Predominam, ainda, os paradigmas importados. Nas décadas de 70-80 houve sintonia forte entre os pesquisadores brasileiros e a Escola Latino-Americana de Comunicação. Mas essa tendência foi sendo paulatinamente sufocada pelos modismos forâneos. É possível que as gerações emergentes neste início de século possam trilhar caminhos investigativos consentâneos com o ethos brasileiro.


RBGDR- As contribuições são mais significativas no campo da teoria ou da metodologia? Algum destaque especifico?
JMM - As contribuições principais situam-se, a meu ver, no terreno histórico-descritivo. Sem pretender exclusivismo referéncial, não posso deixar de mencionar o esforço que vem sendo feito pela Cátedra Unesco/Metodista de Comunicação para o Desenvolvimento Regional no sentido de construir o conceito de região midiática. O livro que estamos lançando, em parceria com a UNITAU constitui uma evidência dessa tentativa. Merece também destaque a iniciativa do Grupo de Pesqusa sobre Comunicação Regional e Global, liderado pela Profª. Drª. Anamaria Fadul (UMESP) no sentido de mapear as empresas midiáticas de natureza regiorlal no território brasileiro.

RBGDR- Nesse contexto, qual tem sido o papel da Cátedra Unesco?
JMM - O papel da Cátedra UNESCO/Metodista tem sido o de agendar as questões da mídia regional na academia. A geração desse conhecimento novo começa a circular no país e a suscitar interesse e reprodução, especialmente através do "Anuário Unesco/Umesp de Comunicação Regional".

RBGDR- Quais são os maiores desafios que a Cátedra tem enfrentado para estimular esse tipo de pesquisa?
JMM - O maior desafio tem sido o desinteresse pelas questões locais ou regionais no âmbito da universidade brasileira. Infelizmente cultivamos anos a fio aquele tipo de "complexo de colonizado" e concentramos os holofotes cognitivos nos fenômenos que ocorrem "além mar" ou nos "centros metropolitanos". Isso acarreta inevitavelmente a escassez de recursos para temas de pesquisa não ungidos pelas "vanguardas" intelectuais.

RBGDR- Quais são os projetos mais importantes da Cátedra?
JMM - Tenho a impressão de que os projetos mais importantes foram as pesquisas que realizamos em redes, contando com a participação de pesquisadores de diferentes regiões. Refiro-me aos estudos sobre as imagens midiáticas do Natal, do Carnaval e das Festas Populares do Brasil, bem como sobre a presença do Mercosul no noticiário dos jornais do Mercosul. Destaco, também, a série "Memória das Ciências da Comunicação", identificando figuras emblemáticas do Centro-Oeste, Rio Grande do Sul e São Paulo. Contudo, o nosso projeto mais ambicioso é a Enciclopédia do Pensamento Comunicacional na América Latina, em processo de sedimentação metodológica, sob a liderança da Profª. Drª. Maria Cristina Gobbi.

RBGDR- De um modo geral, olhando para o futuro o que o senhor enxerga em termos de comunicação?
JMM - Antevejo um futuro caracterizado por mudanças tecnológicas que vão agilizar o papel da mídia, embora persistam os receios de seu controle por parte do Estado. Preservar o regime da liberdade de expressão constitui a garantia do sistema democrático.

RBGDR- Que tipo de contribuição o senhor acha que a comunicação pode dar para reduzir, por exemplo, as desigualdades regionais?
JMM - A principal contribuição deve ser a difusão ampla dessas desigualdades regionais, suscitando o interesse dos gestores públicos pela busca de métodos apropriados para superá-las.

RBGDR- Como o senhor avalia o diálogo interdisciplinar (no nosso caso, por exemplo, os estudos sobre comunicação regional estão num programa de mestrado em gestão e desenvolvimento regional)?
JMM - O diálogo interdisciplinar é sempre desejável, mas para que ele se realize plenamente é indispensável a empatia de ambas as partes dialogantes. Isso significa dizer que uma disciplina não pode se sobrepor em relação às outras no processo de construção do conhecimento.

RBGDR- O que a comunicação midiática precisa melhorar para enfrentar, com qualidade, as demandas deste século XXI?
JMM - Ela carece de projeto estratégico, calcado em diagnósticos situacionais e em pesquisas sobre as aspirações dos que se localizam no pólo receptor. A nossa mídia permanece ainda muito elitista, desdenhando a cultura popular, e, portanto, deixando de protagonizar o papel educativo que lhe compete numa sociedade constituída por contingentes expressivos de analfabetos funcionais ou segmentos desescolarizados.

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