RBGDR-
Que avalíação o senhor faz da
pesquísa em comunicação regional
no Brasil?
JMM - Trata-se de objeto
ainda pouco explorado em nosso país. Tenho
a impressão de que os pesquisadores da área
cultivam certo preconceito a propósito do fenômeno
e consequentemente o relegam a plano secundário
na agenda investigativa. Felizmente o panorama começa
a mudar. Universidades como a UNITAU e a UMESP começam
a valorizar tais estudos, estimulando projetos e apoiando
publicações.
RBGDR-
Que preocupações e tendêncías
a pesquisa em comunicação regional tem
agendado?
JMM - Os principais estudos
são de caráter histórico, resgatando
a memória de jornais e jornalistas. Uma nova
tendência é a que focaliza a relação
entre regional e global.
RBGDR-
Já se pode falar, pela produção
que o senhor conhece e acompanha em uma "escola
brasileira" (ou "escolas") de estudo
em comunicação regional?
JMM -Acredito que ainda
não existe um modo brasileiro de produzir conhecimento
sobre comunicação ou sobre a comunicação
regional. As ousadias de pioneiros como Carlos Rizzini,
Luiz Beltrão ou Danton Jobim não repercutiram
nas novas gerações. Predominam, ainda,
os paradigmas importados. Nas décadas de 70-80
houve sintonia forte entre os pesquisadores brasileiros
e a Escola Latino-Americana de Comunicação.
Mas essa tendência foi sendo paulatinamente
sufocada pelos modismos forâneos. É possível
que as gerações emergentes neste início
de século possam trilhar caminhos investigativos
consentâneos com o ethos brasileiro.
RBGDR-
As contribuições são mais significativas
no campo da teoria ou da metodologia? Algum destaque
especifico?
JMM - As contribuições
principais situam-se, a meu ver, no terreno histórico-descritivo.
Sem pretender exclusivismo referéncial, não
posso deixar de mencionar o esforço que vem
sendo feito pela Cátedra Unesco/Metodista de
Comunicação para o Desenvolvimento Regional
no sentido de construir o conceito de região
midiática. O livro que estamos lançando,
em parceria com a UNITAU constitui uma evidência
dessa tentativa. Merece também destaque a iniciativa
do Grupo de Pesqusa sobre Comunicação
Regional e Global, liderado pela Profª. Drª.
Anamaria Fadul (UMESP) no sentido de mapear as empresas
midiáticas de natureza regiorlal no território
brasileiro.
RBGDR-
Nesse contexto, qual tem sido o papel da Cátedra
Unesco?
JMM - O papel da Cátedra
UNESCO/Metodista tem sido o de agendar as questões
da mídia regional na academia. A geração
desse conhecimento novo começa a circular no
país e a suscitar interesse e reprodução,
especialmente através do "Anuário
Unesco/Umesp de Comunicação Regional".
RBGDR-
Quais são os maiores desafios que a Cátedra
tem enfrentado para estimular esse tipo de pesquisa?
JMM - O maior desafio
tem sido o desinteresse pelas questões locais
ou regionais no âmbito da universidade brasileira.
Infelizmente cultivamos anos a fio aquele tipo de
"complexo de colonizado" e concentramos
os holofotes cognitivos nos fenômenos que ocorrem
"além mar" ou nos "centros metropolitanos".
Isso acarreta inevitavelmente a escassez de recursos
para temas de pesquisa não ungidos pelas "vanguardas"
intelectuais.
RBGDR-
Quais são os projetos mais importantes da Cátedra?
JMM - Tenho a impressão
de que os projetos mais importantes foram as pesquisas
que realizamos em redes, contando com a participação
de pesquisadores de diferentes regiões. Refiro-me
aos estudos sobre as imagens midiáticas do
Natal, do Carnaval e das Festas Populares do Brasil,
bem como sobre a presença do Mercosul no noticiário
dos jornais do Mercosul. Destaco, também, a
série "Memória das Ciências
da Comunicação", identificando
figuras emblemáticas do Centro-Oeste, Rio Grande
do Sul e São Paulo. Contudo, o nosso projeto
mais ambicioso é a Enciclopédia do Pensamento
Comunicacional na América Latina, em processo
de sedimentação metodológica,
sob a liderança da Profª. Drª. Maria
Cristina Gobbi.
RBGDR-
De um modo geral, olhando para o futuro o que o senhor
enxerga em termos de comunicação?
JMM - Antevejo um futuro
caracterizado por mudanças tecnológicas
que vão agilizar o papel da mídia, embora
persistam os receios de seu controle por parte do
Estado. Preservar o regime da liberdade de expressão
constitui a garantia do sistema democrático.
RBGDR-
Que tipo de contribuição o senhor acha
que a comunicação pode dar para reduzir,
por exemplo, as desigualdades regionais?
JMM - A principal contribuição
deve ser a difusão ampla dessas desigualdades
regionais, suscitando o interesse dos gestores públicos
pela busca de métodos apropriados para superá-las.
RBGDR-
Como o senhor avalia o diálogo interdisciplinar
(no nosso caso, por exemplo, os estudos sobre comunicação
regional estão num programa de mestrado em
gestão e desenvolvimento regional)?
JMM - O diálogo
interdisciplinar é sempre desejável,
mas para que ele se realize plenamente é indispensável
a empatia de ambas as partes dialogantes. Isso significa
dizer que uma disciplina não pode se sobrepor
em relação às outras no processo
de construção do conhecimento.
RBGDR-
O que a comunicação midiática
precisa melhorar para enfrentar, com qualidade, as
demandas deste século XXI?
JMM - Ela carece de projeto
estratégico, calcado em diagnósticos
situacionais e em pesquisas sobre as aspirações
dos que se localizam no pólo receptor. A nossa
mídia permanece ainda muito elitista, desdenhando
a cultura popular, e, portanto, deixando de protagonizar
o papel educativo que lhe compete numa sociedade constituída
por contingentes expressivos de analfabetos funcionais
ou segmentos desescolarizados.