Conclamando
à construção das identidades nacionais/regionais
Entrevista concedida ao Sr.Marcello Chamusca
Idealizador do Portal RP-Bahia
Membro do Conselho Editorial da RP em Revista Contato: geral@rp-bahia.com.br
O professor José Marques de Melo é, sem dúvida,
uma das maiores personalidades vivas da comunicação
do nosso país. Fundou o Departamento de Jornalismo
e Editoração da ECA/USP, unidade universitária
da qual foi diretor de 1989 até 1993 e onde chegou
a ser agraciado com o título de Professor Emérito
da instituição. Atuou como professor visitante
nas Universidades de Barcelona (Espanha), Texas (Estados Unidos
da América), Ibero-Americana (México), Diego
Portales (Chile) e Simón Bolívar (Bolívia).
Exerce atualmente o cargo de Diretor da Cátedra UNESCO
de Comunicação da Universidade Metodista de
São Paulo. Pesquisador 1A do CNPq, publicou 25 livros,
organizou 73 coletâneas e mais de uma centena de artigos
em periódicos científicos do país e do
exterior. Orientou mais de uma centena de teses de doutorado
e/ou dissertações de mestrado. Integrou o Conselho
Deliberativo do CNPq e presidiu a Comissão de Especialistas
em Comunicação Social do MEC
O
prof. José Marques de Melo co-fundou o Laboratório
de Estudos Avançados de Jornalismo da UNICAMP e é
sócio-fundador e atual presidente da Intercom, a maior
e mais importante associação interdisciplinar
de comunicação do nosso país. Na entrevista
exclusiva que concedeu a RP em Revista, como um jornalista
que respeita profundamente a profissão de relações
públicas, falou dos seus projetos, da inclusão
das relações públicas neles, e sobre
a possibilidade de ampliação da participação
de relações públicas na Intercom.
RP em Revista: Qual o motivo que o levou
a acrescentar um GT na área de Relações
Públicas no encontro que realiza com a Rede Alcar anualmente
sobre a história da mídia no Brasil?
José
Marques de Melo: A Rede Alfredo de Carvalho
foi constituída originalmente (2001) em função
da memória da imprensa, antecipando-se às comemorações
de 2008, quando a imprensa brasileira completa 200 anos. Mas
a mobilização nacional que se foi sendo estimulada
em função da efeméride suscitou adesões
de outros segmentos midiáticos ou de profissões
correlatas ao jornalismo. Por isso mesmo, quando realizamos
o nosso primeiro congresso nacional (Rio, 2003), estava evidente
que deveríamos trabalhar com um conceito ampliado de
"imprensa", englobando todo o universo da "mídia".
Assim sendo, foram sendo organizados grupos de trabalho para
acolher projetos de resgate da memória em dez segmentos
midiáticos, entre eles as Relações Públicas,
sob a liderança da Profa. Dra. Claudia Moura (PUCRS).
RP em Revista: Não sabemos se o senhor
já tomou conhecimento da campanha nacional de valorização
da profissão de relações públicas
que está sendo coordenada pela equipe do Portal RP-Bahia
com o apoio do CONFERP, dos CONRERPs, da ABRP, além
de instituições, profissionais e estudantes
de todo o Brasil. Como o senhor vê esta movimentação
dos relações públicas e como acha que
isso pode influenciar no contexto do mercado da comunicação
no Brasil?
José Marques de Melo:
Venho acompanhando o movimento, sem, no entanto, conhecer
todos os seus episódios. Leio eventualmente o que se
publica na internet. Minha opinião é a de que
essa campanha chegou em boa hora. O campo profissional das
Relações Públicas conquista amplitude
e legitimidade em plano mundial. Paradoxalmente ele enfrenta
no Brasil uma crise de baixa auto-estima. Como reflexo da
crise nacional, a área acadêmica está
em declínio: vários cursos estão sendo
desativados ou enfrentam reduzida demanda nos processos seletivos.
RP em Revista: Enquanto atual presidente
do maior grupo interdisciplinar de comunicação
do país, o Intercom, como encara a proposta de criação
de um GT exclusivo de Relações Públicas,
desvinculando-as da Comunicação Organizacional?
José Marques de Melo:
Desde sua criação, a INTERCOM tem valorizado
o segmento das Relações Públicas, fundando
um GT específico. No entanto, durante o processo de
reestruturação do nosso espaço investigativo,
alguns segmentos foram agrupados, a partir das demandas constatadas.
Aquelas sub-áreas como Jornalismo e Propaganda, que
congregam contingentes expressivos de pesquisadores atuantes
em nossos congressos nacionais, foram mantidas autonomamente.
Como as Relações Públicas se mostravam
estacionárias (para não dizer em estágio
regressivo) em volume de conhecimento novo (papers inscritos
anualmente) foi inevitável sua anexação
ao segmento contíguo da Comunicação Organizacional.
Os dois segmentos passaram a formar um Núcleo de Pesquisa
- NP - embora ali sejam preservados os dois focos investigativos.
A proposta de fragmentação vai depender da quantidade
e da qualidade dos trabalhos específicos que venham
a ser produzidos. Este é um desafio que deve ser enfrentado
pelas novas gerações de pesquisadores da área.
RP em Revista: Qual a avaliação que
faz dos eventos regionais que o Intercom empreendeu este ano?
José Marques de Melo:
Os eventos regionais foram priorizados pela atual da INTERCOM
no sentido de descentralizar a nossa atuação
em território nacional. O gigantismo do congresso nacional
sinalizava o esgotamento de um modelo que reflete em grande
parte a tendência concentracionista da nossa sociedade.
O balanço dos 5 simpósios regionais promovidos
em 2006 aponta resultados positivos, mas também suscita
muitas questões a serem equacionadas prontamente. Cada
região tem suas peculiaridades, que devem ser compreendidas
e respeitadas, num ambiente de sadia coexistência cultural.
RP em Revista: Há algum tempo surgiu
a idéia de se criar a Rede Intercom Júnior para
estudantes, uma vez que o Intercom só aceita profissionais
graduados como associados. Que fim levou esse projeto? e qual
a sua opinião sobre ele?
José Marques de Melo:
Desde o congresso de 2005 (Rio de Janeiro) a INTERCOM JUNIOR
vem sendo implementada. Ela ganha força no congresso
de Brasília (setembro, 2006), registrando uma demanda
progressiva. O número de trabalhos inscritos pelos
estudantes de graduação triplicou em relação
ao ano passado. É possível que esse incremento
tenha sido maior. Em suma, o projeto vai de vento em popa...
RP em Revista: Gostaríamos que nos
falasse um pouco sobre os seus projetos pessoais e profissionais
para 2006 e 2007.
José Marques de Melo:
Além das minhas obrigações institucionais,
pretendo retomar neste biênio o estudo sobre os gêneros
midiáticos que tem sido uma constante na minha trajetória
acadêmica. A sociedade digital desafia os pesquisadores
da área a discernir os novos processos de produção
de conteúdo. O que realmente vem se transformando?
Pretendo também deslanchar um antigo projeto destinado
a construir uma enciclopédia midiática brasileira.
RP em Revista: Qual a sua opinião
sobre a proposta que tem circulado na Internet sobre o estabelecimento
das relações públicas como área
autônoma do conhecimento e não mais uma sub-área
da comunicação?
José Marques de Melo:
Acho perigosa. Apesar das Relações Públicas
estarem situadas em território fronteiriço entre
a Comunicação, a Administração
e a Política, sua essência permanece nos atos
persuasivos engendrados a médio e longo prazo. As manifestações
das Relações Públicas são produtos
híbridos do Jornalismo e da Propaganda. Na academia,
devemos fortalecer a identidade dos campos profissionais,
não ignorando que todos eles fluem através dos
mesmos suportes midiáticos, onde coexistem dialeticamente.
A autonomização das sub-áreas demanda
uma massa crítica que ainda não possuímos.
RP em Revista: Qual a mensagem que o senhor
poderia deixar para os comunicadores brasileiros, sobretudo,
os que estão começando sua caminhada?
José
Marques de Melo: Devemos concentrar energias
na construção de referentes sintonizados com
o ethos brasileiro, neutralizando a tendência hegemônica
de mimetizar os modelos forâneos. Não estou propondo
uma cruzada xenófoba. Estou simplesmente conclamando
à construção das identidades nacionais/regionais
que podem nos projetar no mapa multipolar que se avizinha
nesta fase de globalização acelerada.
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