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A
pesquisa experimental nas escolas de comunicação:
Reduzindo a distância entre academia e mercado
José
Marques de Melo
Fonte:
ScienceNet, Ano VIII - nº 53 - Março
de 2004
O ensino
de comunicação na universidade brasileira contabiliza
meio século de trajetória histórica.
As primeiras décadas – 50 e 60 – foram
marcadas por avanços e retrocessos de natureza pedagógica,
decorrentes da inserção institucional dos pioneiros
cursos de jornalismo nas faculdades de filosofia e letras.
Tais espaços acadêmicos refletiam as demandas
dos agentes educativos, vocacionados para atuar nas redes
de ensino secundário, inibindo as identidades peculiares
a segmentos profissionais, como o nosso, moldados compulsoriamente
pelo estilo discursivo que ali era hegemônico.
Assim sendo, as primeiras gerações de profissionais
midiáticos formados em nosso país sofreram as
agruras de um modelo pedagógico que valorizava o beletrismo
e a didática do giz-e-quadro negro. Poucos cursos desenvolveram
processos sintonizados com a natureza típica do jornalismo
, ou seja, atividades de produção noticiosa,
a não ser exercícios redacionais, dentro ou
fora da sala de aula, usando bem mais a caneta do que a máquina
de escrever.
Felizmente
aquele era um tempo em que os estágios dos estudantes
nas empresas midiáticas eram permitidos e estimulados,
como uma forma de compensar o “teoricismo” das
aulas. O estágio funcionava, em alguns casos, como
mecanismo de deserção universitária,
especialmente para os jovens impacientes, que preferiam aproveitar
as chances de trabalho remunerado, aprendendo na prática.
Renegavam, desta maneira, a participação nos
colóquios agendados pela rotina universitária,
jubilando-se a médio prazo, o que significava perder
o direito ao diploma.
A criação das primeiras faculdades de comunicação,
em Brasília, São Paulo e Porto Alegre, ainda
na década de 60, estabeleceu um divisor de águas.
Libertando-se da tutela das faculdades de filosofia e letras,
os cursos de jornalismo passaram a funcionar de modo articulado
com as carreiras emergentes de publicidade, relações
públicas, cinema, editoração, radio e
televisão.
Tecnofobia
Tais espaços acadêmicos facilitaram a convivência
entre professores que procediam do universo profissional,
demandando condições de trabalho capazes de
sintonizar o aprendizado dos estudantes com a dinâmica
singular dos fluxos noticiosos, persuasivos ou diversionais,
quer nas empresas midiáticas, quer nos serviços
de comunicação. Sua voz nem sempre repercutia
nas instâncias de decisão acadêmica, ainda
monopolizadas por dirigentes universitários conservadores,
pouco permeáveis às inovações
pedagógicas. A área de comunicação
continuava a ser dimensionada à imagem e semelhança
dos cursos humanísticos, respaldados apenas pela aula
de sala e pela biblioteca. A reivindicação de
laboratórios soava como pedagogicamente incorreta,
pois alguns mandatários temiam que as novas carreiras
trilhassem pelos descaminhos do “tecnicismo”.
Essa
tecnofobia somente foi superada nos anos 70, quando o Conselho
Federal da Educação reformou o anacrônico
currículo mínimo então vigente, instituindo
novas exigências didático-pedagógicas
para os cursos de comunicação. Entre elas estava
a necessidade de equipamentos profissionais e laboratórios
especializados . Como a reforma do velho currículo
demorou muitos anos para ser completada, tendo em vista o
dissenso imperante em nossa área do conhecimento ,
por razões de natureza ideológica (professorado)
ou mercantil (donos de escolas), a implantação
dos laboratórios foi sendo adiada .
Finalmente
a Resolução CFE 2/84 tornou obrigatória
a infra-estrutura laboratorial, criando o ambiente propício
ao desenvolvimento do experimentalismo nas faculdades de comunicação
de todo o país. Apesar da hegemonia então exercida
pelos adversários do empirismo, a força da lei
atuou no sentido de estruturar atividades de ensino comprometidas
com a aplicação prática dos conhecimentos
assimilados pelos jovens na sala de aula ou adquiridos nas
leituras recomendadas pelos mestres que valorizavam a bibliografia
segmentada. Isto facilitou a criação de pontes
com o mercado de trabalho . Essa nova safra de diplomados
já possuía experiência na criação,
produção e difusão de mensagens ou na
gestão de campanhas, o que os habilitava a disputar
vagas nas indústrias do ramo, sem reciclagem prévia.
Quando
a INTERCOM foi criada, no final da década de 70, o
Brasil vivia essa conjuntura marcada pela luta equivocada
entre as duas correntes que se digladiam na arena acadêmica:
os teóricos contra os empíricos e vice-versa
.
Refletindo
a concepção de pesquisa cultivada nacionalmente
pelo setor das humanidades, os nossos primeiros congressos
foram caracterizados pela prevalência dos teóricos
em relação aos práticos. Melhor dizendo,
nosso público foi sendo forjado pelos professores mais
afeitos à reflexão crítica dos fenômenos
comunicacionais. Se não desprezavam, pelo menos minimizavam
a pesquisa aplicada. Os anais dos nossos encontros pioneiros
refletem essa primazia do ensaísmo, guiado pela ótica
das ciências humanas, em detrimento das reflexões
sobre os práticas profissionais que transcorriam no
interior das indústrias midiáticas .
Tornava-se
evidente a dicotomia entre as temáticas dos ciclos
interdisciplinares e as tendências dos grupos de estudos
que se organizavam segundo a clivagem peculiar às carreiras
legitimadas pelo currículo mínimo . Tanto assim
que os docentes das habilitações profissionais,
justamente pela necessidade de oxigenar seus debates, tornando-os
mais úteis ao cotidiano da vida universitária,
criam fóruns especializados, nas atividades pré
e pós congresso. Essa era uma demonstração
de que o campo acadêmico da comunicação
se convertia em arena complexa.
Espírito
plural
Foi graças ao espírito pluralista da INTERCOM
que tais segmentos encontraram terreno fértil para
cultivar suas especificidades, naturalmente preservando a
articulação orgânica com as diretrizes
científicas propostas pelas lideranças situadas
no bloco das disciplinas teóricas ou na pós-graduação.
Percebendo
esse hiato intelectual e procurando evitar que os fóruns
periféricos se transformassem em guetos, tomei a iniciativa
de propor à diretoria da nossa sociedade, no início
dos anos 90, a criação de um novo espaço
dentro dos nossos congressos anuais. Preocupava-me a ausência
dos estudos laboratoriais nos debates que realizávamos
periodicamente. Começavam a florescer iniciativas arrojadas,
dentro dos laboratórios didáticos . Quando muito,
elas se difundiam perante o mundo do trabalho, tendo em vista
a convocação de profissionais do mercado para
integrar as bancas examinadoras dos trabalhos finais de curso.
Mas eram ignoradas pelos professores das disciplinas básicas,
que em geral as rejeitavam solenemente, dizendo tratar-se
de reprodutivismo estéril.
É
verdade que alguns trabalhos se limitavam a mimetizar os produtos
que circulavam no mercado, etapa pedagógica indispensável
ao aprendizado das rotinas laborais. Contudo, havia exercícios
de criatividade e de renovação, tanto em linguagem
quanto em conteúdo. Eles davam passos significativos
na acumulação de eficácia planificadora,
pragmatismo e competência gerencial.
Tais
peças funcionavam como passaporte dos recém-formados
para o ingresso imediato nas empresas de comunicação,
graças à percepção dos recrutadores
de novos talentos. Em muitos casos, os alunos desenvolviam
produtos e serviços de acordo com os padrões
das empresas que se dispunham a atuar como “clientes”
das agências experimentais mantidas pelas universidades.
Ao familiarizar-se precocemente com a cultura empresarial,
esses estudantes fustigados pelo empreendorismo asseguravam
o primeiro emprego.
Minha
proposta à INTERCOM foi a instituição
de um concurso destinado a selecionar, anualmente, os produtos
laboratoriais que refletissem criatividade estética,
inovatividade tecnológica e ousadia conteudística.
Tais peças gerariam uma exposição aberta
a todos os participantes do nosso congresso, no sentido de
emular os professores e alunos daquelas instituições
que permaneciam em patamares didáticos convencionais.
Para tanto, busquei o apoio da revista IMPRENSA, que premiava
com viagens ao exterior os autores dos melhores trabalhos,
bem como os docentes que haviam supervisionado a pesquisa
experimental nos laboratórios das universidades.
O surgimento
da Expocom
Surgiu desta maneira a EXPOCOM – Exposição
Universitária da Pesquisas Experimental em Comunicação,
um projeto modesto que pretendia exibir a ponta do iceberg
representado pelos mais arrojados exercícios de criação,
produção e difusão de produtos midiáticos,
submersos inexplicavelmente no imenso oceano da graduação
em comunicação social. Lançado em 1993,
o certame começou a ser viabilizado no congresso de
Piracicaba, contando com a liderança, o empenho e sobretudo
o entusiasmo do Prof. Paulo Rogério Tarsitano. Ele
não apenas formatou o projeto, mas lhe deu consistência
acadêmica, propondo uma taxionomia para as atividades
experimentais realizadas pelas faculdades de comunicação,
em todas as habilitações profissionais e no
conjunto das disciplinas que integram o universo empírico
das ciências da comunicação.
Seu envolvimento
intelectual foi de tal natureza que a pesquisa experimental
em comunicação converteu-se em objeto do seu
trabalho doutoral. Defendida na Universidade Metodista de
São Paulo, em abril de 1999. a tese, sob o título
A Expocom como agente gerador de qualidade no ensino da comunicação
social, foi assim resumida pelo autor:
“Criada
como evento paralelo do XVIII Congresso Brasileiro de Ciências
da Comunicação, a Expocom (Exposição
da Pesquisa em Comunicação) é um dos
grandes avanços da Intercom nos anos noventa. O crescimento
que ela experimentou nas suas cinco edições,
desde que foi implantada em 1994, mostrou que as instituições
de ensino que dela participaram apresentaram uma sensível
evolução da sua qualidade, perceptível
nos trabalhos inscritos. O que estava motivando essa evolução
? As escolas estavam apresentando produtos comunicacionais,
projetos experimentais e pesquisas laboratoriais melhores
a cada ano, tanto no conteúdo quanto na fundamentação
teórica, assim como na finalização e
apresentação.”
A EXPOCOM
mudou a fisionomia dos congressos da INTERCOM, passando a
aglutinar um segmento importante da comunidade acadêmica
da comunicação no Brasil, que antes participava
olimpicamente dos debates anuais. Ela alterou também
o perfil das próprias instituições de
ensino superior, que, emuladas pelos paradigmas legitimados
pelos comitês encarregados de premiar os trabalhos experimentais,
apontavam modelos e indicavam tendências.
Foi tamanho
o vulto assumido pela EXPOCOM em nossos congressos anuais,
catalisando principalmente o interesse dos jovens estudantes
e mobilizando dezenas de especialistas para julgar trabalhos
situados em dezenas de categorias midiáticas, que o
espaço ocupado pelo evento se multiplicou, assumindo
proporções gigantescas. Tanto assim que as suas
lideranças, neste momento em que a iniciativa celebra
seu primeiro decênio, começam a avaliar intensamente
os seus resultados científicos e as suas implicações
pedagógicas, no sentido de estabelecer parâmetros
consensuais e operativos.
Um indicador
concreto da validade da EXPOCOM está contido na assimilação
do modelo brasileiro de pesquisa laboratorial pelos países
vizinhos do Mercosul. A realização de exposições
semelhantes na Argentina e no Uruguai, em anos recentes, confirma
essa percepção valorativa .
O grande
dilema com que se debate, nesta conjuntura, o segmento da
pesquisa experimental, nas escolas de comunicação,
é certamente o de sistematizar todo o conhecimento
acumulado, passando da descrição dos resultados
à sua generalização. Tais evidências,
convertidas em axiomas universalmente aceitos e em princípios
testados empiricamente, podem gerar uma autêntica teoria
da práxis comunicacional brasileira .
Papel
histórico
A EXPOCOM cumpriu um papel relevante na história das
ciências da comunicação, em nosso país,
legitimando o trabalho empírico. Em certo sentido o
projeto vem fortalecendo a identidade peculiar ao campo. Começamos
a nos distanciar organicamente do ensaísmo sociológico
para adotar o perfil que efetivamente nos corresponde como
integrante do bloco das ciências sociais aplicadas,
de acordo com a classificação adotada pelo sistema
nacional de ciência e tecnologia.
Todavia,
muito resta por fazer e aperfeiçoar. A principal tarefa
a exigir nossa atenção e acurácia é
sem dúvida a produção de uma literatura
consistente, capaz de resgatar as metodologias usadas nesses
trabalhos laboratoriais considerados emblemáticos pelos
comitês que os selecionam para as exposições
realizadas anualmente. Da mesma forma, torna-se imprescindível
a construção de uma taxionomia resultante do
consenso entre os praticantes de cada uma das áreas,
no sentido de evitar uma babel terminológica que ocasione
ruídos indesejáveis. Sem essas duas providências
fundamentais será difícil, senão inviável,
produzir um arcabouço teórico capaz de embasar
a formação das novas gerações
e de ser replicado nas atividades profissionais que elas irão
desenvolver no interior das indústrias midiáticas.
Esse
processo de consolidação teórica pressupõe
naturalmente um amplo diálogo entre os agentes da pesquisa
experimental desenvolvida pelas universidades e os praticantes
dos ofícios legitimados pelas corporações
profissionais, ensejando fluxos interativos entre academia
e mercado. Trata-se de uma tarefa ancorada nos espaços
nacionais, mas que não pode perder de vista aqueles
consensos epistemológicos internacionalmente validados.
Os seminários
organizados no último biênio para explicitar
os procedimentos operacionais dos experimentos realizados
pelos vencedores dos prêmios EXPOCOM representam um
primeiro passo nessa direção. Mas eles precisam
ser aprofundados e ampliados, de modo a superar o caráter
exploratório até agora vigente, efetuando a
sistematização dos conceitos empregados e manualizando
aqueles conhecimentos resultantes de comparações
validadas no tempo e no espaço.
Este
é o desafio que lanço enfaticamente aos participantes
da EXPOCOM 2003, nesta mensagem de júbilo pelo primeiro
decênio da iniciativa e pelas conquistas acumuladas
em todo o território nacional.
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