LUIZ
BELTRÃO: PIONEIRO DOS ESTUDOS DE
FOLK-COMUNICAÇÃO NO BRASIL
José
Marques de Melo
Fonte: Conferência proferida no Auditório da
AESO - Associação de Ensino Superior de Olinda,
Olinda, PE, no dia 10 de setembro de 2003, quando foi criado,
por iniciativa do Prof. Dr. Alfredo Vizeu, o Núcleo
de Pesquisa em Jornalismo "Luiz Beltrão"
Se vivo
estivesse, o comunicólogo latino-americano Luiz BELTRÃO
de Andrade de Lima teria completado 81 anos no dia 8 de
agosto de 1999. Antes disso, teria celebrado, no mês
de março, os 36 anos de fundação do
primeiro periódico científico brasileiro do
campo das ciências da comunicação, a
revista Comunicações & Problemas. Foi
uma das iniciativas ousadas do Instituto de Ciências
da Informação (ICINFORM), que ele criou e
dirigiu como entidade inicialmente associada à Universidade
Católica de Pernambuco e depois à Universidade
de Brasília.
Justamente no
primeiro número da revista Comunicações
& Problemas Beltrão lançou a plataforma
de uma nova disciplina no âmbito das ciências
da comunicação e da informação,
a Folkcomunicação. Seu artigo sobre o "ex-voto"
suscitava o olhar dos pesquisadores da comunicação
para um tipo de objeto que já vinha sendo competentemente
estudado pelos antropólogos, sociólogos e folcloristas,
mas negligenciado pelo comunicólogos.
Seu argumento implícito era o de que as manifestações
populares, acionadas por agentes de " informação
de fatos e expressão de idéias", tinham
tanta importância comunicacional quanto aquelas difundidas
pelos mass media . Por isso mesmo ele recorria ao arsenal
metodológico já testado e aperfeiçoado
no estudo das manifestações convencionais do
mass-journalism (formatadas de acordo com os canais pós-gutenbergianos)
e as transportava para analisar as ricas expressões
daquilo que ele sugeria como integrantes do folk-journalism
(veiculadas em canais pré-gutenbergianos ou usando
tecnologias tão rudimentares quanto a prensa de Mogúncia).
Na verdade,
Beltrão descobrira que os processos
modernos de comunicação massiva coexistiam,
no espaço brasileiro-nordestino, com fenômenos
de comunicação pré-moderna. Eram reminiscências
do período medieval-europeu, transportadas pelos colonizadores
lusitanos e historicamente aculturadas, aparentando uma espécie
de continuum simbólico. Tais veículos de comunicação
popular ou de folkcomunicação, como ele preferiu
denominar, mesmo primitivos ou artesanais, atuavam como meros
retransmissores ou decodificadores de mensagens desencadeadas
pela indústria da comunicação de massa
(jornais, revistas, rádio, televisão).
Mais do que isso: ele identificou teoricamente
uma semelhança entre tais processos e aqueles que Lazarsfed
e seus discípulos haviam observado na sociedade norte-americana,
mais conhecido como o paradigma do "two-step-flow-of-communication"
. No entanto, as hipóteses de Luiz Beltrão davam
um passo adiante em relação aos postulados de
Paul Lazarsfeld e Elihu Katz. Enquanto aqueles cientistas
atribuíam um caráter linear e individualista
ao fluxo comunicacional em duas etapas, porque dependente
da ação persuasiva dos "líderes
de opinião", o pesquisador pernambucano tinha
a premonição de que o fenômeno era mais
complexo, comportando uma interação bi-polar
(pois incluía o " feed-back" protagonizado
pelos "agentes populares" no contato com os "
meios massivos") e revelando natureza coletiva. A re-intrepretação
das mensagens não se fazia apenas em função
da "leitura" individual e diferenciada das lideranças
comunitárias. Mesmo sintonizadas com as "normas
de conduta" do grupo social, ela continha fortemente
o sentido da "coesão" grupal, captando os
signos da "mudança social", típico
de sociedades que sofrem as agruras do meio ambiente e necessitam
transformar-se para sobreviver.
Em certo sentido, Luiz Beltrão antecipava
observações empíricas que embalsariam
a teoria das "mediações culturais",
o cerne da contribuição de Jesus Martin Barbero
e dos culturalistas ao pensamento comunicacional latino-americano.
Dessa corrente, o mexicano Jorge González já
fizera referência explícita aos estudos seminais
do cientista pernambucano sobre as classes subalternas brasileiras,
pioneirismo que seria enfatizado pelo próprio Martin
Barbero em sua análise sobre os "aportes"
brasileiros para as ciências sociais da América
Latina durante o congresso INTERCOM’97. Beltrão
reconhecia nos agentes de folk-comunicação,
nas sociedades rurais ou periféricas, um caráter
nitidamente institucional, semelhante àquele que Martin
Barbero atribuiria mais tarde aos agentes educativos, religiosos
ou políticos nas sociedades urbanas metropolitanas.
Mas, antes disso, a originalidade dos estudos
de Luiz Beltrão havia merecido aplausos do maior folclorista
brasileiro, que foi Luís da Câmara Cascudo. Depois
de ler o artigo sobre o " ex-voto" publicado na
revista do ICINFORM, Mestre Cascudo endereçou uma carta
estimuladora, destinada a elevar o astral do seu autor. Beltrão
a transcreveria na edição seguinte do periódico.
"O seu artigo-de-abertura (...) é
um magnífico master-plan. Valorizará o cotidiano,
o vulgar, o realmente popular de feição, origem
e função. Não espere que venha um nome
de fora, um livro de longe, ensinando a amar o que temos ao
alcance dos olhos. Teime, como está fazendo, em valorizar
o Homem do Brasil em sua normalidade. E não apenas
os produtos do esforço desse Homem. Acredite na força
pessoal do seu afeto no plano da penetração
analítica. Acima de tudo, veja com seus olhos. Ande
com seus pés. Depois compare com as conclusões
de outros olhos e com as pegadas de outros pés. (...)
Desconfie dos mentores integrais, nada permitindo às
alegrias do seu livre trânsito. O papagaio, que tanto
fala, não sabe fazer um ninho. E os Pássaros
cantadores aprenderam na gaiola essa habilidade de prisioneiros
profissionais."
O incentivo de Câmara Cascudo foi decisivo.
Tanto assim que Luiz Beltrão sistematizou e ordenou
suas observações sobre as manifestações
da comunicação popular nordestina, ancorando-as
nas teorias do folk-lore e confrontando-as com os paradigmas
da mass-communication. Dois anos depois resgatou as evidências
empíricas e interpretou-as segundo as teorias da comunicação
de massa e da cultura popular, enfeixando-as na tese de doutoramento
que inscreveu na Faculdade de Comunicação da
Universidade de Brasília. O julgamento foi feito por
uma banca de alto nível, composta do comunicólogo
espanhol Juan Beneyto, do midiólogo norte-americano
Hod Horton e do sociólogo brasileiro Roberto Lyra Filho.
Ao aprovar a tese sob o título "
Folkcomunicação, um estudo dos agentes e dos
meios populares de informação de fatos e expressão
de idéias" (1967), a comissão julgadora
outorgou também a Luiz Beltrão o primeiro grau
de Doutor em Comunicação conquistado em universidade
brasileira. Nesse sentido, vale registrar a ousadia de Darcy
Ribeiro que, ao criar a UnB, institucionalizou a titulação
doutoral em todas as áreas do conhecimento e não
apenas naquelas disciplinas já legitimadas academicamente.
Foi através dessa inovação que Luiz Beltrão,
não obstante tivesse o status de Professor-Titular,
deu um exemplo de humildade intelectual aos seus discípulos
e colaboradores, submetendo-se a um exame de mérito
para ostentar legalmente uma condição acadêmica
que já desfrutava por competência.
Naquele mesmo ano, a Universidade de São
Paulo abriria inscrições na recém criada
Escola de Comunicações Culturais para o Doutorado
por Defesa de Tese (de acordo com o sistema europeu então
vigente nas universidades brasileiras). Essa leva de doutores
paulistas somente completaria o doutorado em 1973, tendo os
títulos outorgados nas disciplinas que integravam o
elenco curricular dos cursos ali ministrados (Jornalismo,
Relações Públicas, Rádio e Televisão,
Cinema, Teoria da Comunicação). Coube-lhes naturalmente
robustecer o curso de Mestrado em Ciências da Comunicação
que fora criado no ano anterior, naquela instituição,
contando exclusivamente com doutores oriundos de outras áreas
do conhecimento.
Mas os primeiros doutores e os mestrandos
em comunicação da USP tiveram o privilégio
de contar com o estoque de conhecimentos já sedimentado
por Luiz Beltrão e por outros estudiosos da área.
Minha tese de doutorado em Jornalismo (defendida em 1973)
fundamentou-se em muitas idéias desenvolvidas por Luiz
Beltrão. Ele atuou na verdade como meu co-orientador
acadêmico, situação idêntica àquela
compartilhada com o antropólogo Egon Schaden e com
o meu orientador de fato, Prof. Dr. Rolando Morel Pinto. Minha
experiência foi semelhante à de vários
outros colegas que se doutoraram na mesma conjuntura histórica.
Virgílio Noya Pinto, Freitas Nobre, Thomas Farkas,
Gaudencio Torquato, Cândido Teobaldo, Sara Chucid da
Viá, Anamaria Fadul também dialogaram com Luiz
Beltrão durante os colóquios para os quais foi
convidado na USP, no início dos anos 70.
Sua tese de doutorado virou livro em 1971, intitulado "Comunicação
e Folclore", ampliando a difusão das idéias
que construíra sobre a Folkcomunicação.
No entanto, os seus fundamentos teóricos ficaram opacos,
uma vez que a Editora Melhoramentos, que acolheu a tese, optou
por amputar-lhe o capítulo introdutório, substituindo-o
por uma breve introdução ao tema. Em parte,
isso se explica por razões mercadológicas (poupar
o leitor comum dos prolegômenos típicos das teses
universitárias). Mas a explicação verdadeira
está no parecer feito pelo consultor editorial, Prof.
Lourenço Filho, fascinado pela originalidade do autor,
mas perplexo ante a sua ousadia teórica.
Além de fundamentar-se em teorias norte-americanas
da mass communication , Beltrão buscou amparo nas teses
da "dinâmica do folclore" defendidas pelo
folclorista (de esquerda) Edison Carneiro. Aqueles eram tempos
de obscurantismo cultural, mantidos pela legislação
extra-constitucional decretada pelo AI-5. Assim sendo, a teoria
da folkcomunicação de Luiz Beltrão circulou
incompleta até 1980, quando sopraram os ventos da abertura
"lenta, gradual e segura" do General Geisel.
Ao publicar seu segundo livro sobre essa temática
- "Folkcomunicação, a comunicação
dos marginalizados" (São Paulo, Cortez, 1980),
Beltrão corrige de algum modo essa lacuna, sintetizando
e sem dúvida atualizando sua teoria da folkcomunicação.
Ela já se apresentava, nesse momento, bem mais rica
e estruturada, fruto das pesquisas empíricas que ele
realizou em outras regiões brasileiras, especialmente
em Brasília (síntese cultural do país),
e dos confrontos feitos com pesquisas semelhantes desenvolvidas
em outros países. Nesse sentido, ele tomou ao pé
da letra a proposta de Câmara Cascudo: ande primeiro
com os próprios pés e veja com os próprios
olhos para depois comparar com as pegadas e os olhares dos
outros.
De qualquer maneira, o pensamento de Luiz
Beltrão disseminou-se em todo o território nacional,
conquistando seguidores que deram andamento a algumas de suas
idéias ou discípulos que avançaram nas
trilhas empíricas por ele abertas. Considero-me um
deles, ainda que não o mais conseqüente, nessa
área, como sem dúvida tem sido Roberto Benjamin,
Oswaldo Trigueiro ou Joseph Luyten. Dos escritos desse grupo
resultou um corpo conceitual que trata de explicitar (ou reinterpretar)
a teoria da folkcomunicação.
Apesar disso, a Folkcomunicação de Luiz Beltrão
encontrou dupla resistência: a dos folcloristas conservadores
(que pretendiam defender a cultura popular das investidas
midiáticas modernizantes) e a dos comunicólogos
libertadores (que pretendiam fazer da cultura popular o cavalo
de tróia das suas batalhas políticas em lugar
de apreender nessas manifestações genuínas
o limite da resistência possível de comunidades
empobrecidas cuja meta é a superação
da marginalidade social).
Explica-se, desta maneira, o desconhecimento das novas gerações
de comunicadores em relação às idéias
de Luiz Beltrão. Elas permanecem estocadas nas prateleiras
das bibliotecas, sendo indispensável propiciar aos
midiólogos que vão atuar no próximo século
o acesso a idéias, conceitos, teorias e metodologias
construídos por um dos mais profícuos cientistas
brasileiros da comunicação. Trata-se de um arsenal
acadêmico que ficou de certo modo encoberto, para não
dizer marginalizado, numa conjuntura marcada pela crença
quase cega na obsolescência e morte das tradições
populares, que se acreditava seriam sepultadas pelas correntes
culturais pós-modernas e semi-eruditas.
Mas a História tem suas armadilhas
imprevisíveis. Ao contrário das suposições
modernosas, na verdade estribadas em sentimentos profundamente
elitistas, o que observamos hoje é justamente um movimento
em sentido contrário. A globalização
permite vislumbrar o cenário de um mundo polifacético
e multicultural. Ele sugere que qualquer inserção
pro-ativa no seu universo depende basicamente do capital simbólico
acumulado nas mega, macro ou micro-regiões, potencialmente
convertíveis em imagens e sons capazes de sensibilizar
a aldeia global. Vale dizer, ancorados em dimensão
universalizante. Ou, em outras palavras, enraizados na cultura
popular, mas traduzidos para a linguagem da cultura de massa.
Daí a atualidade do pensamento comunicacional
de Luiz Beltrão, que pensou na era de McLuhan sobre
as interações entre a aldeia local e a aldeia
global. Ao construir um referencial teórico consistente
lançou pontes entre a folk-mídia e a mass-mídia.
Ele reconheceu o universal que subsiste na produção
simbólica dos grupos populares, percebendo ao mesmo
tempo que os dois sistemas comunicacionais continuarão
a se articular numa espécie de feed-back dialético,
contínuo, criativo.
Suas idéias estão sendo resgatadas,
atualizadas e aprofundadas no Brasil pela Rede FOLKCOM, constituída
com o apoio da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação
para o Desenvolvimento Regional. Trata-se de um coletivo de
pesquisadores das interfaces entre comunicação
massiva e cultura popular que vem se reunindo anualmente nas
Conferências Brasileiras de Folkcomunicação.
A primeira foi realizada em 1998 no campus da Universidade
Metodista de São Paulo, na cidade industrial de São
Bernardo do Campo. A segunda ocorreu em 1999 no campus da
FUNREI - Fundação Universidade de São
João del Rei, localizada na cidade mineira de São
João del Rei. As próximas conferências
estão agendas pela Universidade Federal da Paraíba,
em João Pessoa/PB (ano 2001) e Universidade de Passo
Fundo, Rio Grande do Sul (2001).
Em plano latino-americano, o pensamento de
Luiz Beltrão tem inspirado as produções
científicas do Grupo de Estudios de Folk-Comunicación,
criado pela ALAIC (Asociación Latinoamericana de Investigadores
de la Comunicación) e confiado à coordenação
de um dos seus discípulos mais atuantes, o Prof. Dr.
Roberto Emerson da Câmara Benjamin. O primeiro encontro
dos estudiosos latino-americanos da FolkComunicação
ocorreu no 4o. Congresso da ALAIC, promvido na cidade do Recife,
ocasião em que foi lançada uma obra coletiva
sobre a vida e a obra do mestre pernambucano - "Itinerário
de Luiz Beltrão" (Recife, AIP/UNICAP, 1998). O
segundo encontro está previsto para a cidade de Santiago
do Chile, no campus da Universidade Diego Portales, onde se
realizará o V Congresso da ALAIC, em abril do ano 2000.
A memória desses eventos e o conjunto
da obra de Luiz Beltrão - um pensador polifacético
que também produziu estudos e reflexões sobre
Teoria da Comunicação e Teoria do Jornalismo,
além de textos literários e jornalísticos
- estão sendo reunidos e futuramente disponibilizados
para consulta pública no Acervo do Pensamento Comunicacional
Latino-Americano (APCL), uma iniciativa em processo, lançada
pela Cátedra UNESCO de Comunicação do
Brasil, sediada no campus Rudge Ramos da Universidade Metodista
de São Paulo (email: unesco@umesp.com.br).
As fontes de referência para esse trabalho
de registro documental são os ensaios de autoria do
Prof. Dr. Paulo Rogério Tarsitano - "Luiz Beltrão:
vida e obra" (originalmente apresentado à 48a.
Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência - PUC, São Paulo, 1996, depois publicado
na revista Comunicação & Sociedade, n. 25,
POSCOM/UMESP, 1996, p. 165-182) e do Prof. Dr. Roberto Benjamin
- "Folkcomunicação: contribuição
brasileira à escola latino-americana de comunicação"
(originalmetne apresentado à 21. Conferência
Científica da International Association for Mass Communication
Research - University of Starthclyde, Glasgow, Escócia,
1998, depois publicado no Anuário Unesco/Umesp de Comunicação
Regional, São Bernardo do Campo, 1998, p. 133-138).
Para os que se interessarem pelo trabalho pioneiro de Luiz
Beltrão os referidos estudos constituem um convite
à leitura e à reflexão crítica.
Apêndice
PERFIL DE LUIZ BELTRÀO
Nascido em Olinda (Pernambuco), Brasil, no dia 8 de agosto
de 1918, Luiz Beltrão realizou seus estudos humanísticos
no Seminário de Olinda e no Ginásio Pernambucano,
em Recife, graduando-se em Ciências Jurídicas
e Sociais pela Faculdade de Direito da antiga Universidade
do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco.
Mas sua vida profissional foi inteiramente
dedicada ao Jornalismo, atividade que iniciou em 1936, na
reportagem do Diário de Pernambuco. Como jornalista,
atuou em vários órgãos da imprensa pernambucana
e tornou-se líder sindical da categoria, alcançando
projeção nacional. Ao participar de congressos
jornalísticos no país e no exterior, escreveu
ensaios e monografias em que refletiu criticamente sua profissão
e seu impacto na sociedade.
Essas reflexões geraram o livro ‘Iniciação
à Filosofia do Jornalismo", que lhe garantiu o
Prêmio Orlando Dantas - 1959, patrocinado pela Editora
Agir (Rio de Janeiro), que o lançou nacionalmente no
ano seguinte. Tal lançamento representou uma virada
na sua carreira. A atividade profissional colocou-se em segundo
plano, na medida em que avançava seu engajamento acadêmico.
Preocupado com a formação universitária
dos jovens jornalistas, Beltrão aceita convite para
ensinar Ética e Técnica do Jornalismo na Faculdade
de Filosofia Nossa Senhora de Lourdes, em João Pessoa
- Paraíba. Ao mesmo tempo, havia apresentado projeto
para a criação de um Curso Superior de Jornalismo
na Universidade Católica de Pernambuco, iniciativa
acolhida pela congregação dos jesuítas
e implementada a partir de 1961.
Suas aulas de Jornalismo são previamente
escritas, antes de expostas em sala de aula, acumulando conhecimento
que lhe permitiria publicar quatro livros sobre o processo
de produção jornalística e seus gêneros
fundamentais. Da mesma forma, ele anotaria as experiências
pedagógicas que vivenciou na preparação
de jornalistas profissionais, convertendo-as em livro publicado
pelo CIESPAL - Centro Internacional de Estudios Superiores
de Periodismo para América Latina - sob o título
"Métodos de Enseñanza de la Técnica
del Periodismo" (Quito, 1963).
Sua aproximação ao CIESPAL e
às idéias comunicacionais ali difundidas por
cientistas europeus e norte-americanos o influenciam a criar,
em 1963, o primeiro centro brasileiro de estudos acadêmicos
sobre os fenômenos midiáticos. Trata-se do Instituto
de Ciências da Informação (ICINFORM),
mantido mediante convênio com a Universidade Católica
de Pernambuco. Esse núcleo foi responsável pela
formação da primeira equipe de pesquisadores
dedicados sistematicamente aos fenômenos comunicacionais
no Brasil e pelo lançamento da primeira revista científica
da área - Comunicações & Problemas
-, publicada a partir de 1965, tomando como modelo sua congênere
norte-americana Journalism Quartely.
A repercussão nacional e internacional
do trabalho inovador realizado por Luiz Beltrão no
Nordeste Brasileiro, formando jornalistas e pesquisando os
fenômenos da comunicação pública,
foi o fator decisivo para que o Governo Castelo Branco o convidasse
a assumir a direção da Faculdade de Comunicação
da Universidade de Brasília, onde atua durante o período
1965-1969. É ali que defende sua tese de doutoramento
sobre Folkcomunicação, convertendo-se no primeiro
Doutor em Ciências da Comunicação do Brasil.
Esse trabalho, parcialmente publicado em livro - "Comunicação
e Folclore"(São Paulo, Melhoramentos, 1971), tem
caráter seminal, gerando inúmeros estudos e
pesquisas que produziu nos anos seguintes, alguns sob a forma
de livros, outros sob a forma de artigos para revista especializadas
e comunicações apresentadas em reuniões
científicas no país e no exterior.
Convidado a trabalhar na Fundação Nacional do
Índio - FUNAI - ele se dedica a avaliar o comportamento
da imprensa brasileira diante da questão indígena,
cujas principais evidências foram reunidas no livro
"O índio, um mito brasileiro"(Petrópolis,
Vozes, 1977).
Após sua passagem pela Universidade
de Brasília, Beltrão atua como docente e pesquisador
no CEUB - Centro de Estudos Universitários de Brasília
-, trabalho compartilhado com intensa atividade internacional,
convidado para cursos, seminários, palestras e conferências,
principalmente na América Latina. O resultado dessa
profícua vida intelectual é a publicação
de uma trilogia sobre Teoria da Comunicação:
Fundamentos Científicos da Comunicação
(1973), Teoria Geral da Comunicação (1977) e
Teoria da Comunicação de Massa (1986).
Paralelamente à produção
científica sobre os fenômenos sociais da comunicação
e do jornalismo, ele se dedicou à literatura, escrevendo
contos, novelas e romances. Seu primeiro livro literário
foi o romance "Os senhores do mundo"(Recife, 1950).
Depois, surgiram: "Quilometro Zero" (Recife, 1958),
"A serpente no atalho"(Brasília, 1974), "A
greve dos desempregados"(São Paulo, 1984). A consagração
dessa atividade como ficcionista ocorre com a sua eleição
para a Academia Brasiliense de Letras, onde atuou destacamente
até sua morte, no dia 24 de outubro de 1986. Sua última
fase intelectual foi marcada pelo memorialismo, dela resultando
dois livros póstumos: "Contos de Olanda"
(Recife, 1989) e "Memórias de Olinda"(Recife,
1996).
Reconhecido
pela comunidade acadêmica como o pioneiro dos estudos
científicos sobre comunicação no Brasil,
Luiz Beltrão foi escolhido pela XX Assembléia
Geral da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares
da Comunicação (INTERCOM) para ter o seu nome
perpetuado no prêmio nacional que distingue os principais
produtores científicos da área. Anualmente a
INTERCOM confere o Prêmio LUZ BELTRÃO de Ciências
da Comunicação a personalidades e instituições
que se destacaram por relevantes contribuições
ao nosso campo do conhecimento.
|