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Impasses
do jornalismo na virada do milênio
José
Marques de Melo
WEB PARA
PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS
Sala de Prensa 37 - Noviembre 2001 - Año III, Vol.
2
A R T
I C U L O S
1. Preâmbulo
Há 311 anos, exatamente em 8 de março de 1690,
na Universidade de Leipzig, Alemanha, era defendida a primeira
tese doutoral sobre Jornalismo. Seu protagonista foi o estudante
Tobias Peucer, tendo como orientador o próprio reitor
daquela universidade, Prof. Dr. L. Adam Rechenberg.
O trabalho,
publicado pela tipografia de Wittigau, foi escrito em latim
(exigência generalizada nas universidades européias
da época), tendo como título "De relationibus
novellis". O tradutor brasileiro Paulo da Rocha Dias,
com base no texto latino original, bem como nas versões
prévias para o alemão e o catalão, adaptou
esse título para "os relatos jornalísticos",
na nova versão em língua portuguesa.
Se ainda
não constitui uma disciplina acadêmica plenamente
legitimada, o Jornalismo encontra-se em fase de consolidação
e fortalecimento em todo o mundo. A pesquisa dos fenômenos
jornalísticos adquire intensidade nesta conjuntura
de transição milenar.
Evidência
disso é o aparecimento de novos livros e revistas acadêmicas
especificamente dedicadas ao estudo do Jornalismo, em língua
inglesa, no ano passado. Eles traduzem o interesse conquistado
pela pesquisa científica do jornalismo, especialmente
naquelas sociedades onde a democracia se robustece, tanto
no campo político (declínio dos regimes autoritários,
no ocidente e no oriente) quanto no setor econômico
(privatização das empresas midiáticas).
A criação
do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo
na Universidade Federal de Santa Catarina constitui um sinal
iluminador da revitalização dessa disciplina
na universidade brasileira. Por isso mesmo, quero fazer justiça
ao Grupo de Florianópolis. Trata-se de uma equipe que
vem lutando para salvaguardar a especificidade do Jornalismo
no âmbito dos estudos comunicacionais em nosso país.
Essa
ofensiva se impôs numa conjuntura em que o legado dos
estudos jornalísticos parecia condenado ao desaparecimento.
Ela representa um marco histórico na trajetória
do Jornalismo dentro da universidade brasileira. Depois de
meio século de existência nos muros acadêmicos,
o Jornalismo ressurge com intensidade.
2. Cenários
Ingressamos neste novo milênio sob o signo da perplexidade,
do desencanto e do pessimismo. Alguns proclamam genericamente
o "fim da História" (Fukuyama), outros o
"choque das civilizações" (Huntington).
Há também aqueles que, por tabela, vislumbram
o fim do Jornalismo ou a sua desagregação acelerada.
Trata-se
de um tipo de atitude recorrente nas encruzilhadas históricas.
Ela inevitavelmente se instalou no âmago desta conjuntura
que Hobsbawm prefere chamar a "era dos extremos".
No que tange, de modo específico, ao nosso campo de
interesse, ou seja, ao Jornalismo, escolhi três obras
paradigmáticas para ilustrar seu perfil em diferentes
geografias.
A mais
contundente é a coletânea do jornalista espanhol
Martínez Albertos - "El Ocaso del Periodismo".
Na mesma
linha de inventário crítico situa-se o livro
do jornalista norte-americano William A Hachten - "The
Troubles of Journalism", que em português coloquial
poderíamos traduzir por "As encrencas do jornalismo".
Percorre
trilha semelhante o jovem jornalista brasileiro Juremir Machado,
autor do ensaio denominado "A miséria do Jornalismo
Brasileiro - as (in)certezas da mídia".
O terreno comum aos três autores corresponde ao pântano
em que está imerso o jornalismo contemporâneo.
Transitando de um modelo erigido no século XIX, que
se esgotou em meados do século XX, ele protagoniza
um novo padrão, ainda furtivo, neste liminar do século
XXI.
Vamos
examinar as teses e os vaticínios desses exegetas midiáticos.
a) O
caso do Jornalismo
Martínez Albertos, catedrático insigne da Universidade
Complutense de Madrid (Espanha), constrói argumentação
embasada no determinismo tecnológico que avassala a
produção jornalística contemporânea.
Sua tese principal é a seguinte:
"A
galáxia Marconi está derrotando em todas as
frentes a galáxia Gutenberg. E nesse enfrentamento
com derrota anunciada, os jornais impressos não constituem
uma exceção. (p. 23)
Os corolários
da equação construída pelo autor convergem
para a dupla necrose da atividade jornalística.
Ele preconiza
a morte do meio, ou seja, da imprensa:
"Não é necessário ser profeta para
aventurar que a morte dos jornais impressos em papel não
resistirá além do ano 2020". (p. 24) "Estamos
provavelmente na iminência de uma sublime paradoxo na
História do Jornalismo: os jornais convergem progressivamente
para se tornar guias especializados em navegar nas autopistas
da informação, de tal modo que não serão
mais utilizados como suportes noticiosos, mas como instrumentos
de ajuste para saber movimentar-se no ciberespaço e
nele localizar (...) os conteúdos informativos, de
opinião ou de diversão demandado pelo usuário"
(p. 30).
Mas
também vaticina a morte da mensagem, ou seja, do jornalismo:
"Não
apenas desaparecerão os diários impressos, os
jornais convencionais que conhecemos e amamos. Provavelmente
também desaparecerá com êles o jornalismo.
E com
o jornalismo pode desaparecer também a concepção
vigente sobre a liberdade de imprensa e o respeito sagrado
pelo direito dos cidadãos a uma informação
tecnicamente correta... " (p. 31) "Não há
informação tecnicamente correta se os jornalistas
e os meios devotados à informação de
atualidade não respeitam a norma básica que
estabelece uma radical diferença entre os gêneros
jornalísticos, com a finalidade de garantir aos leitores
que os fatos sejam apresentados como dados indiscutíveis
do mesmo modo que os comentários sejam formulação
pessoais absolutamente livres"(p. 41).
Na esteira
de tão mórbido panorama, ele antevê a
morte do jornalista, ou seja, dos produtores de notícias:
"O
jornalismo é uma técnica social em perigo de
extinção. (...) A tecnologia eletrônica
põe em perigo a sobrevivência do diário
impresso e consequentemente do próprio jornal. A mentalidade
pós-moderna está solapando seriamente os fundamentos
ideológicos que fizeram possível tanto o o nascimento
como o desenvolvimento e avanço posterior dessa modalidade
de trabalho social que denominamos jornalismo. (...) O jornalismo
configurou-se até mesmo como uma verdadeira profissão
nas sociedades modernas. (p. 42). "O jornalista vem atuando
como um profissional legitimado por uma espécie de
delegação da sociedade para a consecução
de um direito coletivo da comunidade política: o direito
a receber uma informação tecnicamente correta."(p.
45) "Ironicamente poderíamos dizer que o jornalista
é um ser para a notícia"(p. 46). "A
comunicação jornalística é (...)
uma das modalidades relevantes da comunicação
de massas: o jornalismo é fundamentalmente, comomunicação
para públicos massivos..."(p. 52) "Os cibernautas,
os provedores de informação não são
jornalistas: trabalham com mentalidade radicalmente distinta.
E seus paradigmas para a coleta e a seleção
dos dados não obedecem à lei do interesse geral
do público massivo.
Seus
instrumentos de trbalho são a especialização
temática dos serviços e a acumulação
praticamente indiscriminada de todos os dados disponíveis"
(p. 54/55).
Ao concluir
a previsão, o mestre espanhol explica que seu aparente
pessimismo, da mesma forma que o catastrofismo, correspondem
a uma estratégia de natureza pedagógica.
"Pretendi
fundamentalmente chamar a atenção para a encruzilhada
com que nos deparamos. O que nos espera, ao dobrar a esquina
da História, não deve ser necessariamente caótico
ou penoso para os indivíduos. Creio na capacidade inata
do ser humano pra enfrentar as inclemências históricas
de cada conjuntura e para prosseguir na caminhada em direção
a melhoria coletiva dos povos. É provável que
desapareça, como eu o vejo, o modelo de jornalismo
de jornalismo que nós temos vivido, submergidos como
estamos no ocaso da modernidade. Mas surgirão outras
instituições, outras técnicas, outros
métodos destinados a substituir vantajosamente os valores
descritos." (p. 57)
b) Encrencas
do Jornalismo
O diagnóstico do mestre William Hachten tem as marcas
explícitas do pragmatismo norte-americano. O que significa
dizer: aguçada consciência crítica da
realidade, sem perder de perspectiva os caminhos para superar
problemas, crises, cataclismas. Isso fica evidente no título
do capítulo final do seu recente livro: "Jornalismo
em tempo de mudança".
Sua preocupação
principal ancora-se nos desvios mercadológicos do jornalismo
contemporâneo, sobretudo a tendência de guiar-se
predominantemente pelos impulsos do mercado consumidor.
Ao traçar
um perfil do jornalismo norte-americano no final do século
XX, Hachten utiliza a metáfora da moeda com duas caras.
Cara
"edificante" - "Mesmo em tempo de crises ou
em momentos convencionais, a mídia jornalística
tem cumprido papel prodigioso ao relatar os fatos corretamente,
com a rapidez necessária, acrescentando sua necessária
interpretação e explanação no
sentido de informar e tranquilizar o público".
(p. 174)
Cara
"desalentadora" - "Lamentavelmente a mídia
de qualidade desafina ao pautar e destacar fatos triviais
que alternam ou combinam variáveis como celebridade,
sexo, crime ou escândalo para competir com os tablóides
sensacionalistas". (p. 174)
Desta
maneira, ele separa o "joio do trigo" no campo da
produção jornalística dos EUA, proclamando
aos quatro ventos:
"Este
livro preocupa-se fundamentalmente com a falência da
mídia confiável e da informação
pública, numa conjuntura em que a engrenagem da cultura
popularesca vem tragando o jornalismo de qualidade, ao fabricar
uma mescla de entretenimento, endeusamento, sensacionalismo,
auto-ajuda e promoção de vendas - misturando
coisas que estão situadas em espaços devotados
à publicidade, promoção, relações
públicas, marketing, orientadas sobretudo pelo mau-gosto."
(p. 175)
O cerne
da questão está na evidência de que as
novas gerações da sociedade norte-americana
começam a desvalorizar o "jornalismo de qualidade",
enfraquecendo-o como instância do "conhecimento
público". Em consequência dessa crise de
"identidade do jornalismo", cria-se uma "animosidade"
crescente e uma "irritação" constante
da população em relação aos jornalistas.
Em poucas
palavras: o jornalismo perde credibilidade, prestígio,
reconhecimento público.
"O
jornalismo de interesse público - o ingrediente vital
da democracia - tem sido prticularmente trivializado e corrompido.
Fabricantes de opiniões e previsões, acantonados
nos "talk-shows"televisivos ou nas colunas assinadas
dos jornais e revistas, tem invadido o espaço da reportagem
cuidadosa e da itnerpretação cautelosa, especialmente
durante as campanhas políticas. O jornalismo da fama
tem sido julgado pelo público como cínico, arrogante
e distanciado dos desejos e aspirações do cidadão
comum". (p. 176)
O xis
da questão, segundo a análise do professor Hachten,
está na administração do conflito entre
os dois principais agentes do jornalismo. De um lado, o mega-corporativismo
das empresas jornalísticas (hoje controladas por grandes
corporações capitalistas, excessivamente preocupadas
com o lucro fácil, imediato e abundante). De outro,
o micro-corporativismo dos jornalistas profissionais, outrora
baluartes da "liberdade de imprensa" e do "jornalismo
como serviço público".
c) Miséria
do Jornalismo
As perplexidades do professor brasileiro Juremir Machado englobam
as variantes privilegiadas pelos exegetas do jornalismo no
chamado primeiro mundo (Comunidade Européia e América
do Norte). A diferença é que ele as expõe
num estilo "aberto à vertigem panfletária",
denotando a um só tempo ironia e mordacidade.
Na sua
ótica, o conflito entre empresários e jornalistas
é insolúvel no Brasil, por culpa dos próprios
jornalistas, que padecem de dupla idiotice: ideológica
e tecnológica. Por isso mesmo, os jornalistas fazem
o jogo dos patrões imaginando atuar em oposição
a eles.
"A
premissa básica deste ensaio é banal: a mídia
funciona com uma rede. (...) Antes de tudo, como uma rede
de favores trocados, rede de conivência. Não
se trata tampouco de salientar novamente, em exclusividade,
o tráfico de influência entre empresários
e poder - real, violento e imoral -, mas de assinalar o lugar
consentido, ou inconsciente, de muitos jornalistas (a maioria?)
nesse sistema que, convertido em engrenagem, constitui uma
máquina capaz de girar quase por conta própria.
(...) Patrões e jornlistas rezam, enfim, pela mesma
cartilha técnica, mesma quando professam ideologias
opostas". (p. 13)
Como
explicar a idiotice ideológica ?
"Houve
um tempo, real ou mítico, em que o jornalista de esquerda
(...) saía para a rua, com uma pauta, consciente da
tensão entre mercado e ‘regras do bom jornalismo’.
Trata-se, para ele, de ampliar a cada dia a margem de manobra
contra os imperativos ideológicos e comerciais do patrão.
O jornalista de esquerda e o profissional independente acreditavam
(ou queriam, acreditar) na objetividade, na imparcialidade
e no compromisso com a verdade (mitologias do jornalismo).
Aos poucos a esquerda denunciou o caráter ideológico
dessa mitologia. Mas nada colocou de consistente no luar dela,
a não ser uma vaga, dissimulada ou mesmo agressiva
crença na sua própria verdade." (p. 9)
E a idiotice tecnológica ?
"O
idiota tecnológico, recém-chegado na paisagem
midiática brasileira, acredita que a democracia virtual
já começou e que o mundo inteiro está
ligado na Internet. A progressão é tão
grande que em poucos anos nenhuma pessoa viverá sem
um computador. (...) Tudo caminha para o bem no melhor dos
mundos. Questão de anos, de meses, de dias, de horas..."
(p. 11)
Embora
deixe de propor soluções para equacionar a "miséria
do jornalismo brasileiro", Machado isenta o "mercado"
de responsabilidade na sua emergência.
"Na
atualidade, com o triunfo (...) do neoliberalismo ou simplesmente
com a crise (...) da utopia marxista, o mercado comanda, o
manual de redação adapta-se a ele e o jornalista,
mesmo convencido de seguir rigorosamente a norma, limita-se
a fazer a vontade do consumidor. O mercado, porém,
não é necessariamente um monstro. Contraditório,
ainda mais em tempo de explosão das novas tecnologias
da comunicação, serve a todos." (p. 10)
Na sua
opinião, o "mercado" atende às expectativas
dos próprios jornalistas, independentemente das posições
que venham a ocupar na constelação midiática.
"A
questão é saber o que traz mais prejuízos:
o mercado ou a ausência dele ? O democrata razoável,
interessado em melhorar o mundo, não hesitará:
melhor conviver com Faustão, ao lado da Folha de S.
Paulo, do que ter em exclusividade sete horas de discurso
de Fidel Castro. O problema do esquerdista esclarecido é
que o mercado atende também ao gosto dos seus adversários.
Ponto para o mercado. O drama do idiota tecnológico
é tornar visível o que faz; (...) o do esquerdista
esclarecido, tornar invisível o seu oponente."
(p.. 12)
3. Perspectivas
Os cenários descritos pelos três analistas refletem
naturalmente diferenças de observação,
motivadas pelos ambientes em que estão imersos seus
autores. Como disse o filosófo espanhol Ortega y Gasset
o ser humano é produto da sua circunstância.
Ou seja, do espaço em que vive e da sua história
de vida.
Há,
contudo, traços comuns que as identificam, refletindo
aquele "espírito do tempo" vislumbrado pelo
sociólogo francês Edgar Morin como marca registrada
da cultura de massa.
Perpassam
pelos seus diagnósticos três elementos inconfundíveis:
saudosismo, ceticismo, elitismo.
Evidentemente
eles se manifestam com intensidade variável em cada
um dos textos, mas estão presentes, todo o tempo, na
linha de argumentação dos escritores.
O saudosismo
fica bem visível na reflexão de Martínez
Albertos, cuja concepção de jornalismo está
alicerçada na experiência histórica da
mídia impressa, assimilada inicialmente pela mídia
audiovisual, mas da qual se distancia a embrionária
mídia digitalizada.
"O
jornalismo é indubitavelmente uma das instituições
básicas do mundo moderno, surgido daquela mentalidade
hierárquica, sequencial e cronológica típica
da etapa alfabética e livresca, fase importante e chave
da evolução histórica da Humanidade.
O discurso jornalístico é uma modalidade do
discurso moderno. A pergunta que temos reiterado é
a seguinte: uma vez substituída a tecnologia do alfabeto
pela tecnologia eletrônica, poderia subsistir essa instituição
chamada jornalismo ou terá que submeter-se a uma revisão
radical de sua essência ?" (p. 37)
A resposta
esboçada não deixa margem a dúvidas:
"... o jornalismo não é compatível
com a mentalidade pós-moderna."(...) "a etapa
eletrônica significa o predomínio completo e
excludente de uma sensibilidade determinada em que não
haverá lugar para os vestígios arqueológicos
da etapa alfabética. O menos pessimista dos palpites
é o de que os vestígios literários e
livrescos poderão sobreviver durante algum tempo com
um certo valor testemunhal". (p. 37)
O ceticismo
mais aguçado transparece na postura de Juremir Machado,
tanto assim que ele se viu na contingência de atravessar
a fronteira do jornalismo buscando refúgio nos umbrais
da academia.
"Aprendi
a conviver com as regras do jornalismo, transgredindo-as aqui
e ali, sem, no entanto assimilar-lhe a mitologia. (...) Expelido
do jornalismo (...), amadureci como sociólogo da comunicação
a reflexão deste ensaio. Sem nenhuma dúvida
trata-se de produto do ressentimento. Frase bombástica
? Confissão desesperada ? Apenas uma maneira peculiar
de encarar a palavra ‘ressentimento’. Os jornalistas
utilizam-na como escudo contra qualquer crítica aos
seus sacrossantos bastiões. Cada vez que alguém
ssaca o seu repúdio à mídia poderosa
e autocentrada, os profissionais defendem-se rotulando, suprema
ofensa, o acusador de ressentido. Tradução:
todos sonham em brilhar em mídia. Os fracassados atacam-na."(p.
17)
O autor
brasileiro pretende ser abolvido do pecado do elitismo, ao
denunciar essa atitude como característica das lideranças
jornalísticas brasileiras.
"Cada
vez mais, a grande imprensa desliza do shopping de elite para
o mercado público, o que escandaliza o elitismo esquerdista
e confirma o populismo mercadológico"
Numa
postura bem típica do pragmatismo norte-americano,
William Hachten arregaça as mangas, sai das conjecturas
e pergunta "o que precisa ser feito" para superar
os impasses do jornalismo contemporâneo. Sua fórmula
contém 5 ingredientes, mesclando ética e técnica:
a) Restaurar
a linha divisória entre notícias e entretenimento,
praticando um jornalismo mais responsável.
b) Resgatar
a imagem pública dos profissionais do jornalismo. Para
tanto, os jornalistas que fazem cobertura política
precisam despolitizar-se, deixando de lado as paixões
e as idiossincrasias, para voltar a ser legítimos formadores
da opinião pública.
c) Ampliar
a audiência jornalística, recorrendo a estratégias
capazes de motivar os jovens e os adolescentes para o cultivo
cotidiano das notícias.
d) Redefinir
os formatos jornalísticos para adaptá-los à
natureza peculiar da internet sem abdicar de valores essenciais
como veracidade, precisão, equidade e contextualização.
e) Restabelecer
e expandir a importância da cobertura internacional,
prestando mais atenção ao que acontece além
das fronteiras nacionais.
Contudo,
para lograr essa mudança sistêmica torna-se indispensável
que os jornalistas resgatem a auto-estima profissional, nutrindo-se
no entusiasmo e na esperança que foi a marca registrada
da categoria em seus tempos áureos.
4. Impasses
Restabelecer nos jornalistas o imaginário que os situa
como agentes do interesse público, mediadores sociais
ou educadores coletivos corresponde a uma missão irrenunciável
da universidade.
Há
mais de meio século, quando ocupou a primeira cátedra
de Jornalismo do Brasil, Costa Rego, o jornalista paradigmático
da sua geração, tinha plena consciência
dessa tarefa. Ela também foi perseguida por Vitorino
Prata Castelo Branco, quando escreveu o nosso primeiro manual
de jornalismo. E foi sistematizada pelo legendário
Luiz Beltrão, o renovador do ensino de jornalismo no
país.
Infelizmente
o legado desses mestres pioneiros vem correndo o perigo de
incorporar-se às brumas da História. Se a profissão
de jornalista ganhou reconhecimento e legitimidade, no fim
dos anos 60, com a lei de regulamentação profissional,
lamentavelmente o mesmo destino não coube ao ensino
de jornalismo.
As mudanças
legais ocorridas na esfera do Ministério da Educação,
protagonizadas pelas correntes autoritárias que pretenderam
quebrar a espinha dorsal dos jornalistas durante o regime
militar pós-64, acabaram por reduzir a autonomia acadêmica
do Jornalismo na academia. O reducionismo imposto ao curso
de jornalismo, rebaixado a mera habilitação
do mega-curso de Comunicação Social, acarretou
seu atrelamento ao universo comunicológico, condenando-o
à perda da identidade profissional e à descaracterização
como campo do conhecimento.
Evidentemente
o Jornalismo constitui um segmento básico da atividade
comunicacional na sociedade contemporânea, mas seu espaço
geográfico é o da mídia. Desenraizado
desse continente, o ensino de Jornalismo corre o perigo de
perder a sua essência. Ele esteve ameaçado pela
corrente do Pensamento Único (uma espécie de
coquetel culturalista-cibernáutico-frankfurtiano) que
pretendia transformar o campo acadêmico da comunicação
num imenso latifúndio intelectual.
Não
fosse a resistência corajosa do Grupo de Florianópolis,
reivindicando pluralismo, diversidade, autonomia, e aquela
tendência hoje seria hegemônica em todo o país.
Felizmente ela começa a encolher, aprendendo (às
vezes de maneira dolorosa) a conviver com a diversidade e
a praticar o debate civilizado.
Os cursos
de graduação em Jornalismo começam a
se fortalecer em todo o país, organizando-se segundo
parâmetros que os identificam como atividade midiáticas,
profissionais, ancoradas na economia de mercado, mas comprometidas
com o interesse público.
A iniciativa
da Universidade Federal de Santa Catarina ao crir um Curso
de Pós-Graduação em Jornalismo, vocacionado
para se converter em Mestrado Profissional e em Doutorado
Acadêmico representa um passo decisivo na formação
de professores e pesquisadores para atender às demandas
da graduação e também do mercado de trabalho.
O momento
é propício, considerando que o Jornalismo tende
a se revitalizar na emergente Sociedade do Conhecimento, que
se erige nas autopistas informatizadas da Sociedade da Informação.
Trata-se, agora, de dar sentido àquela idéia
seminal de Robert Park, um dos primeiros cientistas sociais
a reconhecer o jornalismo enquanto forma de conhecimento.
"Como
forma de conhecimento a notícia não cuida essencialmente
nem do passado nem do futuro, senão do presente - e
por isso foi descrita pelos psicólogos como o presente
especioso. Pode-se dizer que a notícia só existe
nesse presente. (...) A notícia só é
notícia quando chega às pessoas... (...) Publicada
e reconhecida a sua significação, o que era
notícia se transforma em História. Essa qualidade
transitória e efêmera é da própria
essência da notícia..." (p. 175).
O jornalismo
é portanto a principal forma de conhecimento que permite
aos cidadãos de qualquer sociedade acompanhar, participar
e influir na História do seu tempo.
"No
mundo moderno , o papel da notícia assumiu uma importância
antes acrescida que diminuída em confronto com outras
formas de conhecimento, como a História, por exemplo.
Tão rápidas e drásticas foram as mudanças
nos últimos anos que o mundo moderno parece ter perdido
a perspectiva histórica... (...) Em tais circunstâncias
dir-se-á que a História é lida ou escrita
sobretudo para permitir-nos, pelo cotejo entre o presente
e o passado, compreender o que está acontecendo à
nossa volta, mais do que saber, como nos disseram os historiadores,
o que realmente aconteceu "(p. 184)
A missão
precípua deste Curso de Pós-Graduação
é a de produzir Conhecimento Jornalístico capaz
de compreender os processos noticiosos que permeiam os liames
da sociedade brasileira, fazendo avançar a fronteira
do jornalismo como forma de conhecimento.
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consultada
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