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As
idéias jornalísticas “fora do lugar”
Fonte:
Revista IMPRENSA, ANO 18, n. 204, Coluna: Campus, São
Paulo, agosto 2005, p. 85
Quando
estudei jornalismo, nos idos de 60, tive a chance de compreender,
logo no início do curso, a natureza da atividade informativa
que se desenvolve através dos suportes midiáticos.
Tratava-se de uma visão holística do campo profissional
e dos seus fundamentos científicos ou filosóficos.
Tais
conhecimentos eram transmitidos na disciplina “Introdução
ao Jornalismo” e depois aprofundados na cadeira de “Ética
Jornalística”. Eles constituíam os referentes
norteadores de conteúdos a serem difundidos em distintos
veículos, configurando-se através de gêneros
apropriados.
Minha
geração foi educada de modo a cultivar uma relação
harmônica e criativa entre teoria e prática,
fazer e pensar, criar e avaliar.
Quando,
nos sombrios anos 70, o curso de jornalismo foi reduzido a
mera habilitação ocupacional, compulsoriamente
agregada ao mega-curso de “comunicação
social”, operou-se uma relação conflituosa
entre teoria e prática.
Esse
tipo de dissonância cognitiva foi parcialmente superado
com a extinção do fatídico “currículo
mínimo”, outrora imposto a todo o país,
de norte a sul, de leste a oeste. Os currículos erigidos
sob a aura da nova LDB – Lei de Diretrizes de Bases
da Educação Nacional - restabeleceram o equilíbrio
desejável entre ação e reflexão,
geral e particular, erudição e empiria.
Em
tal contexto, as antigas aulas introdutórias ao jornalismo
foram substituídas pela disciplina de Teoria do Jornalismo.
Mas
os seus docentes se defrontaram com a carência de livros-texto
capazes de embasar o estudo dos conceitos, paradigmas e tendências
do jornalismo. Por um lado, a bibliografia construída
pelos clássicos do jornalismo brasileiro (Barbosa Lima
Sobrinho, Luiz Beltrão, Danton Jobim e outros) está
esgotada e fora de circulação. Por outro lado,
os novos contingentes universitários não estão
habilitados à leitura de obras em línguas estrangeiras.
Em
face disso, passamos a adotar os excelentes manuais produzidos
em Portugal pelo Professor Nelson Traquina. Contudo, eles
enfeixam idéias “fora do lugar”. Seus marcos
teóricos reproduzem criticamente os postulados em que
foram construídos, principalmente nos Estados Unidos,
Inglaterra ou França. Por isso mesmo, denotam ausência
natural de empatia com os fenômenos peculiares do jornalismo
brasileiro. Quando muito, sugerem vieses de corte lusitano.
Felizmente
essa dificuldade pode agora ser compensada com o lançamento
do manual de autoria do professor Felipe Pena – Teoria
do Jornalismo (São Paulo, Editora Contexto, 2005).
Além de fazer uma leitura “brasileira”
dos conceitos e paradigmas “hegemônicos”,
o jovem autor carioca resgata, na apresentação
de cada “teoria”, os aportes “verde-amarelos”
feitos pelos autores nacionais.
Espera-se
que outros intelectuais prossigam na mesma trilha. Resta também
a expectativa de que, na seqüência, as obras dos
pensadores nacionais dos séculos XIX e XX sejam reeditadas.
Elas são indispensáveis aos futuros jornalistas,
em processo de formação acadêmica. Pois
os ajudarão a confrontar as idéias “importadas”
com o pensamento “mestiço”. Ou seja, aquele
resultante das experiências jornalísticas autóctones:
processadas, testadas e legitimadas em território brasileiro.
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