FOLKCOMUNICAÇÃO
NA ERA DIGITAL
A comunicação dos marginalizados
invade a aldeia global
Texto da conferência a ser proferida na
V Bienal Iberoamericana de Comunicación.
México, Campus Estado de México
do Instituto Tecnológico de Monterrey,
19-22/09/2005
Resumo:
Apesar de sua universalidade, a Folkcomunicação,
constituída como sistema de expressão
cultural das classes subalternas ou dos grupos
marginalizados, vem merecendo maior atenção
por parte dos pesquisadores nos países
de industrialização tardia. No caso
emblemático do Brasil, a compreensão
da sua resistência em território
nacional gerou uma disciplina acadêmica,
cujo estoque de saber tem sido útil para
melhor integração da cultura popular
com o sistema de comunicação massiva.
Ao contrário das previsões apocalípticas
daqueles que vaticinaram seu esgotamento gradativo,
no momento em que a sociedade midiática
atingisse o seu apogeu, trata-se de um campo de
estudos que vem sendo fortalecido e atualizado
continuamente. A folkcomunicação
mostra-se aliás bastante robustecida na
era digital. Fundamentado em estudo exploratório
feito na Internet, pretendemos demonstrar como
essa mídia contra-hegemônica vem
potencializando a difusão mundial das formas
de sentir, pensar e agir dos segmentos economicamente
excluídos, das comunidades culturalmente
marginalizadas ou dos grupos politicamente segregados.
Palavras-chave: Folkcomunicação.
Mídia contra-hegemônica. Cultura
popular. Internet. Brasil
Resumen:
Aunque
sea un hecho universal, la Folkcomunicación,
constituída como sistema de expresión
cultural de las clases subalternas o de los grupos
marginados, recibe atención más
destacada de los investigadores en los países
recien industrializados. En el caso emblemático
de Brasil, el estudio de su resistencia en território
nacional respalda uma disciplina acadêmica,
responsable por la construcción de un tipo
de saber útil a la interacción eficaz
entre cultura popular y comunicación masiva.
Al revés de las miradas apocalípticas
de los que predician su gradativo agotamiento,
en la cumbre de la sociedade mediatica, se trata
de un campo de investigación que se hace
fuerte y busca contínua actualización.
En verdad la folkcomunicación enseña
vigor en la edad digital. Anclados en estúdio
de naturaleza exploratória, pretendemos
demonstrar como ese sistema mediatico contra hegemónico
viene potenciando la difusión mundial de
las formas de sentir, pensar e actuar de las poblaciones
economicamente excluídas, de las comunidades
culturalmente marginadas o de los grupos politicamente
segregados.
Palavras-clave:
Folkcomunicación. Medios contra hegemônicos.
Cultura popular. Internet. Brasil
Introdução
O
signo da globalização acelerada
afigura-se como balizador do roteiro percorrido
pela civilização neste início
do século XXI. Na esfera político-econômica,
os encontros anuais de Davos e Porto Alegre oferecem
nítidas evidências de tal processo
mundializador. Ao norte, agentes da economia internacionalizada;
ao sul, militantes políticos anti-globais,
reúnem-se para vociferar suas teses e antíteses.
Entretanto, apenas as elites incorporam tais eventos
e performances ao seu imaginário. Frente
a eles, as camadas populares agem como meros expectadores.
Sem apreender-lhes o sentido, os cidadãos
comuns terminam por alijar da sua vida cotidiana
a retórica dessas manifestações
ruidosas.
Mas
esse fenômeno comporta uma outra dimensão,
nem sempre perceptível a olho nu. Ele repercute
intensamente nas conversações familiares,
projetando-se nos grupos de vizinhança,
e por isso mesmo acaba sendo incorporada ao universo
simbólico das comunidades periféricas.
Trata-se do mosáico cultural que a mídia
globalizada exibe diariamente, rompendo o isolamento
social em que os grupos periféricos viveram
até recentemente. Costumes, tradições,
gestos e comportamentos de outros povos, próximos
ou distantes, circulam amplamente na aldeia global.
Da mesma forma, padrões culturais que pareciam
sepultados na memória nacional, regional
ou local ressuscitam profusamente. Facilitando
a interação entre gerações
diferentes, eles permitem o resgate de celebrações,
ritos ou festas aparentemente condenados ao esquecimento.
Trata-se
de um torvelinho cultural que antagoniza, compara,
distingue e mescla símbolos de diferentes
nações, regiões, cidades,
bairros, povoados (COCHRANE, 1995), constituindo
a expressão contumaz daquela riqueza do
folclore midiatizado. Como evento singular, ele
fora esboçado na teoria folkcomunicacional
de Luiz BELTRÃO (1967). A rigor, ele corresponde
à seqüência brasileira de um
episódio histórico protagonizado
emblematicamente por Marshal McLUHAN (1951). Ao
perceber essa mutação cultural,
com a argúcia e a astúcia que lhe
eram típicas, o pensador canadense rotulou-a
apropriadamente como folclore do homem industrial.
Há
meio século, portanto, o folclore da sociedade
industrial refletia a apropriação
da “cultura popular” pela poderosa
“cultura de massas”. Processando símbolos
e imagens enraizados nas tradições
nacionais dos países hegemônicos,
as indústrias culturais as convertiam em
mercadorias, distribuindo-as para o consumo das
multidões planetárias (BAUSINGER,
1961). Desta maneira, o folclore midiático,
típico da sociedade pós-industrial,
configurou-se como amalgama de signos procedentes
de diferentes geografias nacionais ou regionais,
buscando projetar culturas seculares ou emergentes
no novo mapa mundial.
Os
espaços ocupados pelas tradições
populares na agenda midiática contemporânea
podem traduzir iniciativas destinadas a preservar
identidades culturais ameaçadas de extermínio
ou estagnação, quando confinadas
em territórios pretensamente inexpugnáveis.
Mas também podem funcionar como alavancas
para a renovação dos modos de agir,
pensar e sentir de grupos ou nações
que, empurrados conjunturalmente para o isolamento
mundial, haviam permanecido refratários
à incorporação de novidades.
Nesse
sentido, o folclore midializado possui dupla face.
Da mesma forma que assimila idéias e valores
procedentes de outros países, preocupa-se
com a projeção das identidades nacionais,
exportando conteúdos que explicitam as
singularidades dos povos aspirantes a ocupar espaços
abertos no panorama global.
Enquanto
“laboratório de civilização”
onde a “mestiçagem” tornou-se
paradigmática (RAMOS, 1952), o Brasil continua
a oferecer evidências de um “sincretismo”
cultural continuamente renovado. Nossa cultura
nacional foi amalgamada pela conjunção
de símbolos oriundos de povos multifacetados.
O contingente lusitano trouxe-nos um legado híbrido
de tradições euro-latinas, incorporando
traços civilizatórios assimilados
nos territórios africanos e asiáticos,
onde suas naves aportaram pioneiramente. Essa
matriz hegemônica incorporou traços
inconfundíveis das civilizações
ameríndias que habitavam o nosso litoral,
nos tempos da colonização, e que
foram expulsas da faixa atlântica, sobrevivendo
isoladamente na selva amazônica e outros
focos bravios. A elas se juntaram os costumes
e expressões das comunidades africanas,
trazidas compulsoriamente nos navios negreiros
para desempenhar funções produtivas
nas plantações açucareiras,
pecuária extensiva ou nos complexos auríferos.
Dessa
imbricação simbólica resultou
uma pujante cultura popular responsável
em grande parte pela natureza da identidade nacional
brasileira, que se reproduziu heterogeneamente
durante cinco séculos em todos os quadrantes
da nossa geografia. Contudo, os traços
explícitamente homogêneos da chamada
cultura brasileira são aqueles herdados
da cultura erudita euro-latina, disseminados sistematicamente
pela rede escolar, igreja católica e outras
instituições respaldadas pelo aparato
estatal.
Trata-se
de dualismo cultural que se foi alterando, no
decorrer do século XX, pela penetração
de padrões consentâneos com a fisionomia
polifacética da emergente cultura de massas,
importada de matrizes inicialmente européias
e ultimamente das indústrias simbólicas
norte-americanas (MARQUES DE MELO, 1970). Essa
corrente teve efeitos significativos na configuração
do nosso perfil cultural contemporâneo,
que deixa de refletir o “arquipélago
cultural” outrora identificado por Manuel
DIÉGUES JÚNIOR (1960) , projetando
aquela faceta que Renato ORTIZ (1988) rotulou
apropriadamente como a “moderna tradição
brasileira”.
Estamos,
portanto, em pleno processo de transmutação
da nossa identidade cultural, compelidos a continuar
importando padrões oriundos das matrizes
da indústria mundial de bens simbólicos,
mas também participando desse mercado internacional
potencializado pela cultura massiva. (MARQUES
DE MELO, 1998)
Pressupostos teóricos e metodológicos
O
midiólogo canadense Marshall McLUHAN (1951)
debutou no cenário intelectual norte-americano,
em meados do século XX, com a publicação
do livro The Mechanical Bride.
Nesse
livro, ele cumpriu a tarefa de explicitar a gênese
da cultura de massas, ou seja, quando a mídia
catalisou os sentidos da sociedade norte-americana.
Sua pesquisa tomou como referencial os anúncios
publicitários e as peças de entretenimento
(quadrinhos, cinema, televisão) difundidos
pelos jornais diários e revistas periódicas.
Estava
implícita a idéia de que o “homem
industrial”, vivendo nas periferias das
megalópoles, inseria-se numa cultura de
massa enraizada nas tradições populares.
Este é inegavelmente o “segredo”
do êxito alcançado pela indústria
midiática dos EUA, alicerçando-se
no arsenal simbólico das comunidades rurais
edificadas pelos antigos colonizadores ingleses
ou no legado cultural introduzido pelos contingentes
de imigrantes. Estes formariam comunidades urbanas
amalgamadas à forte cultura popular norte-americana,
preservada pelo aparato estatal e ao mesmo tempo
fortalecida pelas agências socializadoras
atuantes em todo o território nacional.
Ao
massificar-se, essa cultura popular criou elos
interativos entre ianques primitivos e adventícios.
Preparava, assim, o terreno para sua exportação
a todo o planeta, consubstanciado a aldeia global
.
Na
mesma conjuntura em que Marshall McLuhan, ao norte
das Américas, formulava hipóteses,
posteriormente confirmadas como realidades inequívocas,
ao sul do Equador, Luiz Beltrão, diagnosticava
situação diametralmente inversa.
O Brasil perfilava-se como uma sociedade marcada
pela vigência de uma mídia elitista,
ancorada nos valores da cultura erudita. Donde
a necessidade de decodificação das
suas mensagens para serem assimiladas pelas camadas
populares da nossa sociedade.
A
este processo de tradução dos conteúdos
midiáticos pelos “meios populares
de informação de fatos e expressão
de idéias”, BELTRÃO (1967)
denominou Folkcomunicação. Sua tese
de doutorado foi dedicada a elucidar as estratégias
e os mecanismos adotados pelos agentes folkcomunicacionais
no sentido de tornar inteligíveis fatos
(informações), idéias (opiniões)
e diversões (entretenimento). Em pesquisas
posteriores BELTRÃO (1980) comprovou que
a imprensa, o rádio, a televisão
e o cinema difundem mensagens que não logram
a compreensão de vastos continentes populacionais.
Esses bolsões “culturalmente marginalizados”
reagem de forma nem sempre ostensiva, robustecendo
um sistema midiático alternativo. Constroem
e acionam veículos artesanais ou canais
rústicos, muitas vezes estabelecendo também
uma espécie de feedback em relação
ao sistema hegemônico.
As
pesquisas desenvolvidas pelos discípulos
de Luiz Beltrão atestam contemporaneamente
a pujança dos processos folkcomunicacionais
na base da nossa sociedade. Seus resultados demonstram
a persistência daqueles contingentes “marginalizados”
da sociedade de consumo, que ainda demandam a
decodificação “popular”
dos conteúdos elitistas veiculados pela
mídia convencional (BENJAMIN, 2000).
Evidencia-se,
contudo, a emergência de uma corrente em
sentido oposto, qual seja a incidência de
temas populares na mídia massiva, refletindo
a sensibilidade dos seus editores para corresponder
às expectativas dos segmentos que se incorporam
ao seu mercado consumidor, principalmente na imprensa
diária. Tais processos folkmidiáticos
(MARQUES DE MELO, 2004) começam a ser desvendados
pela nova geração que integra a
Rede Brasileira de Pesquisadores de Folkcomunicação.
Ao
avaliar essa tendência, somos levados a
concluir que estaríamos reproduzindo, meio
século depois, aquele fenômeno que
McLUHAN identificara na América do Norte
(Estados Unidos e Canadá), dando-lhe o
rótulo de ‘folclore do homem industrial”.
A disciplina
A
Folkcomunicação configura hoje um
segmento inovador de pesquisa latino-americana
no âmbito das ciências da comunicação.
Dedica-se ao “estudo dos agentes e dos meios
populares de informação de fatos
e expressão de idéias”.
O
objeto de pesquisa dessa nova disciplina (MARQUES
DE MELO, 2005) situa-se na fronteira entre o Folclore
(resgate e interpretação da cultura
popular) e a Comunicação de Massa
(difusão industrial de símbolos
através de meios mecânicos ou eletrônicos
destinados a audiências amplas, anônimas
e heterogêneas).
Se
o Folclore compreende formas grupais de manifestação
cultural protagonizadas pelas classes subalternas,
a Folkcomunicação caracteriza-se
pela utilização de estratégias
de difusão simbólica capazes de
expressar em linguagem popular mensagens previamente
veiculadas pela indústria cultural.
Luiz
Beltrão a entendia como processo de intermediação
entre a cultura das elites (erudita ou massiva)
e a cultura das classes trabalhadoras (rurais
ou urbanas).
Dentro
dessa perspectiva, realizaram-se as primeiras
pesquisas do gênero, privilegiando decodificações
da cultura de massa (ou suas leituras simplificadoras
da cultura erudita) feitas por veículos
rudimentares, nos quais se abastecem simbolicamente
os segmentos populares da sociedade.
Contudo,
para legitimar-se socialmente e para conquistar
os mercados constituídos por cidadãos
que não assimilaram inteiramente a cultura
alfabética, a indústria cultural
brasileira necessita retroalimentar-se continuamente
na cultura popular. Muitos dos seus produtos típicos,
principalmente no setor do entretenimento, resgatam
símbolos populares, submetendo-os à
padronização da fabricação
massiva e seriada. Tais apropriações
são mais comuns nos formatos ficcionais
ou musicais.
A
folkcomunicação adquire cada vez
mais importância, pela sua natureza de instância
mediadora entre a cultura de massa e a cultura
popular, protagonizando fluxos bidirecionais e
sedimentando processos de hibridação
simbólica. Ela representa inegavelmente
uma estratégia contra-hegemônica
das classes subalternas (MARQUES DE MELO, 1980).
Trata-se de uma negociação a um
só tempo sutil e astuciosa, naquela acepção
cunhada pelo italiano Antonio GRAMSCI (1979) e
reinterpretada pelo brasileiro Edison CARNEIRO
(1965), que influenciou decisivamente o arcabouço
teórico construído por Luiz Beltrão.
Os paradigmas
Luiz
Beltrão lançou a plataforma dessa
nova disciplina no âmbito das ciências
da comunicação no primeiro número
da revista Comunicações & Problemas.
No artigo sobre o “ex-voto”, ele suscitava
o olhar dos pesquisadores da comunicação
para um tipo de objeto que já vinha sendo
competentemente estudado pelos antropólogos,
sociólogos e folcloristas, mas negligenciado
pelos comunicólogos. (MARQUES DE MELO,
2003)
Seu
argumento implícito era o de que as manifestações
populares, acionadas por agentes de “ informação
de fatos e expressão de idéias”,
tinham tanta importância comunicacional
quanto aquelas difundidas pelos mass media . Por
isso mesmo recorria ao arsenal metodológico
já testado e aperfeiçoado no estudo
de manifestações convencionais do
mass-journalism (formatadas de acordo com os canais
pós-gutenbergianos). E as transportava
para analisar as ricas expressões daquilo
que sugeria como integrantes do folk-journalism
(veiculadas em canais pré-gutenbergianos
ou usando tecnologias tão rudimentares
como a prensa de Mogúncia).
Na
verdade, Beltrão descobrira que os processos
modernos de comunicação massiva
coexistiam, no espaço brasileiro, com os
fenômenos de comunicação pré-moderna.
Eram reminiscências do período medieval-europeu,
transportadas pelos colonizadores lusitanos e
historicamente aculturadas, aparentando uma espécie
de continuum simbólico. Mesmo primitivos
ou artesanais, tais veículos de comunicação
popular, ou de folkcomunicação,
como ele preferiu denominar, atuavam como meros
retransmissores ou decodificadores de mensagens
desencadeadas pela indústria da comunicação
de massa (jornais, revistas, rádio, televisão).
Mais
do que isso: ele identificou teoricamente uma
semelhança entre tais processos e aqueles
que Lazarsfed e seus discípulos haviam
observado na sociedade norte-americana, mais conhecido
como o paradigma do “two-step-flow-of-communication”.
As hipóteses de Luiz Beltrão representaram,
na verdade, um passo adiante em relação
aos postulados de Paul Lazarsfeld e Elihu Katz.
Enquanto aqueles cientistas atribuíam um
caráter linear e individualista ao fluxo
comunicacional em duas etapas, porque dependente
da ação persuasiva dos “líderes
de opinião”, o pesquisador brasileiro
teve a premonição de que o fenômeno
era mais complexo. Comporta uma interação
bi-polar (pois inclui o “ feed-back”
protagonizado pelos “agentes populares”
no contato com os “ meios massivos”)
e revela natureza eminentemente coletiva. A re-interpretação
das mensagens não se faz apenas em função
da “leitura” individual e diferenciada
das lideranças comunitárias. Mesmo
sintonizada com as “normas de conduta”
do grupo social, ela traduz o forte sentido da
“coesão” grupal. Ao captar
os signos da “mudança social”
evidencia o perfil típico de sociedades
que sofrem as agruras do meio ambiente, necessitando
transformar-se para sobreviver.
Em
certo sentido, Luiz Beltrão antecipava
observações empíricas que
seriam posteriormente aprofundadas e contextualizadas
pela teoria das “mediações
culturais”, o cerne da contribuição
de Jesus Martin BARBERO (1987) e dos culturalistas
ao pensamento comunicacional latino-americano.
Dessa corrente, o mexicano Jorge GONZALEZ (1990)
já fizera referência explícita
aos estudos seminais do cientista brasileiro sobre
as classes subalternas. Tal pioneirismo seria
também enfatizado pelo próprio Martin
BARBERO (1999), na análise sobre os “aportes”
brasileiros para as ciências sociais da
América Latina que apresentou ao XX Congresso
Brasileiro de Ciências da Comunicação,
(Santos, 1997). Beltrão atribuia a esses
agentes de folkcomunicação, atuantes
nas sociedades rurais ou periféricas, um
caráter nitidamente institucional, semelhante
àquele que Barbero identificaria mais tarde
nos agentes educativos, religiosos ou políticos
nas sociedades urbanas metropolitanas.
A
difusão
Como
toda proposta inovadora, a Folkcomunicação
de Luiz Beltrão encontrou alguns obstáculos
para se legitimar. Ela encontrou dupla resistência.
A dos folcloristas conservadores, que pretendiam
defender a cultura popular das investidas midiáticas
modernizantes. E a dos comunicólogos radicais,
que pretendiam fazer da cultura popular o cavalo
de tróia das suas batalhas políticas,
em lugar de apreender nessas manifestações
genuínas o limite da resistência
possível de comunidades empobrecidas, cuja
meta é a superação da marginalidade
social.
Mas
a História tem suas armadilhas imprevisíveis.
O que observamos hoje é justamente um movimento
em sentido contrário, desmentindo aquelas
reações negativistas que vaticinaram
o fim das tradições rústicas,
tragadas pela espiral da pós-modernidade
e desta maneira poderiam sepultar o objeto de
estudo da Folkcomunicação, A globalização
permite vislumbrar o cenário de um mundo
polifacético e multicultural. Ele sugere
que qualquer inserção pro-ativa
no seu universo depende basicamente do capital
simbólico acumulado nas mega, macro ou
micro-regiões (MARQUES DE MELO, 2004b),
potencialmente convertíveis em imagens
e sons capazes de sensibilizar a aldeia global.
Vale dizer: ancorados em dimensão universalizante.
Em outras palavras: enraizados na cultura popular,
mas traduzidos para a linguagem da cultura de
massa.
Daí
a atualidade do pensamento comunicacional de Luiz
Beltrão, que pensou na era de McLuhan sobre
as interações entre a aldeia local
e a aldeia global. Ao construir um referencial
teórico consistente lançou pontes
entre a folk-mídia e a mass-mídia.
Ele reconheceu o universal que subsiste na produção
simbólica dos grupos populares, percebendo
ao mesmo tempo que os dois sistemas comunicacionais
continuarão a se articular numa espécie
de feed-back dialético, contínuo,
criativo.
Seu
legado intelectual disseminou-se em todo o território
nacional, conquistando seguidores que deram andamento
a algumas de suas idéias ou que avançaram
nas trilhas empíricas por ele abertas (MARQUES
DE MELO, 2005).
Além dos sucessores imediatos como Roberto
BENJAMIN (2000, 2004), Joseph LUYTEN (2000, 2001,
2004), José Maria TENÓRIO (1998,
2004), Oswaldo TRIGUEIRO (2002, 2004) e Sebastião
BREGUEZ (2001, 2004), floresce uma segunda geração
de pesquisadores dos fenômenos folkcomunicacionas.
Destacam-se,
entre eles: Severino LUCENA (1998, 2004), Antonio
Teixeira BARROS (2000, 2001, 2004), Marlei SIGRIST
(2002, 2004, 2004b), Samantha CASTELO BRANCO (1997,
2000, 2005), Cristina SCHMIDT (2000, 2001, 2004),
Antonio HOHLFELDT (2002, 2002b 2004), Maria Cristina
GOBBI (2004, 2005), Maria Érica de OLIVEIRA
(2000), Daniel GALINDO (1999, 2000, 2001), Elizabeth
GONÇALVES (1999, 2005), Rosa NAVA (2001),
Waldemar KUNSCH (1998, 2000), Maria das Graças
TARGINO (2001), Sergio GADINI e Zeneida ASSUMPÇÃO
(1999, 2004), Karina WOITOWICZ (2001), Betânia
MACIEL (1998, 2005), , Mariana MESQUITA (2000),
Alfredo d`ALMEIDA (2002), Rosangela MARÇOLLA
(2002), Orávio Campos SOARES (2003, 2004)
e Tamara BRANDÃO (2004, 2005). Vem resultando
dos escritos desse grupo um lastro empírico
que trata de explicitar, atualizar e rejuvenescer
a teoria da folkcomunicação.
Suas
idéias estão sendo resgatadas, atualizadas
e aprofundadas pela Rede FOLKCOM – Rede
Brasileira de Folkcomunicação, constituída
com o apoio da Cátedra UNESCO/UMESP de
Comunicação para o Desenvolvimento
Regional. Trata-se de um coletivo de pesquisadores
das interfaces entre comunicação
massiva e cultura popular que vem se reunindo
anualmente nas Conferências Brasileiras
de Folkcomunicação, há quase
uma década. As reuniões de São
Bernardo do Campo (1998), São João
del Rei (1999), João Pessoa (2000), Campo
Grande (2001), Santos (2002), Campos de Goytacazes
(2003), Lajeado (2004) e Teresina (2005) produziram
um acervo constituido por centenas de estudos
empíricos e ensaios críticos.
A
memória desses eventos acaba de ser reunida
e disponibilizada, para consulta pública,
na Enciclopédia do Pensamento Comunicacional
na América Latina, uma iniciativa lançada
pela Cátedra UNESCO de Comunicação
do Brasil – www.metodista.br/unesco/encipecom
Agregando
uma centena de pesquisadores de todas as regiões
brasileiras, a Rede FOLKCOM, em parceria com a
Universidade Estadual de Ponta Grossa, vem editando
também uma publicação eletrônica,
denominada Revista Internacional de Folkcomunicação,
acessível na web no seguinte endereço:
http://www.uepg.br/revistafolkcom
Em
plano latino-americano, o pensamento de Luiz Beltrão
tem inspirado as produções científicas
do Grupo de Estudios de Folk-Comunicación,
criado pela ALAIC - Asociación Latinoamericana
de Investigadores de la Comunicación –
sob a coordenação de um dos seus
discípulos mais atuantes, o Prof. Dr. Roberto
Emerson da Câmara Benjamin. O primeiro encontro
dos estudiosos latino-americanos da FolkComunicação
ocorreu no 4o. Congresso da ALAIC, promovido na
cidade do Recife, ocasião em que foi lançada
uma obra coletiva sobre a vida e a obra do mestre
pernambucano -Itinerário de Luiz Beltrão
(Recife, AIP/UNICAP, 1998). Três outros
encontros desse grupo foram realizados em Santiago
do Chile (2000) e Santa Cruz de la Sierra, Bolívia
(2002) e La Plata, Argentina (2004). Sua próxima
reunião está prevista para a cidade
brasileira de São Leopoldo, em 2006.
Projeção
na Internet
Se
a disciplina acadêmica vem experimentando
tamanha expansão, mais significativa tem
sido a trajetória da Folkcomunicação
nos espaços propiciados pela Internet.
Esse território mostrou-se fértil,
principalmente para a germinação
e o cultivo de relatos sobre as atividades desenvolvidas
pelos agentes folkcomunicacionais, ampliando consideravelmente
seu raio de ação. Além de
garantir a sobrevivência de vários
gêneros ou formatos de expressão
popular, a web permite multiplicar os seus interlocutores,
bem como ensejar o intercâmbio entre grupos
e pessoas que possuem identidades comuns, mesmo
distanciados pela geografia.
Buscando
comprovar esse tipo de assertiva, fizemos um rastreamento
de palavras-chave no banco de dados mantido pelo
Google , o que ensejou resultados inesperados
.
Procuramos
saber inicialmente qual a amplitude das fontes
disponíveis na Internet sobre a Folkcomunicação
como disciplina acadêmica. Encontramos 1.118
referências, sendo 823 alusivas à
própria disciplina e 295 ao seu fundador,
Luiz Beltrão.
A
seguir, buscamos conhecer o tamanho do espaço
ocupado pelos fenômenos tipicamente folkcomunicacionais,
aqueles que sinalizam os objetos de estudo dos
pesquisadores acadêmicos. Experimentamos
então uma grande surpresa ao constatar
que o universo empírico é quase
mil vezes superior ao do campo teórico.
Encontramos 960.891 referências que focalizam
tipos de folkcomunicação situados
em diferentes patamares da vida cotidiana.
Trabalhamos
com uma matriz taxionômica construída
a partir do exercício classificatório
da folkcomunicação (MARQUES DE MELO,
1979) submetido aos participantes do primeiro
congresso nacional de ciências da comunicação
(Santos, INTERCOM, 1978), de certo modo acolhido
pelo fundador da disciplina. Tanto assim que,
ao elaborar o documento “Indicador e Bibliografia
Sumária para a Pesquisa em Folkcomunicação”,
BELTRÃO (1980) remete “o estudioso
à bibliografia reunida por MARQUES DE MELO,
no seu ensaio sobre a disciplina Sistemas de Comunicação
no Brasil” (pág. 278)
Essa
classificação contempla 4 gêneros
folkcomunicacionais – escrita, oral, icônica
e cinética. Revendo-a, nesta conjuntura
histórica, percebemos que ela pode ser
útil para reconhecer a natureza dos objetos
folkcomunicacionais que, rompendo a barreira
do milênio, projetam-se no futuro. Contudo,
achamos insuficiente o âmbito contemplado
para o gênero “folkcomunicação
escrita”, decidindo ampliá-lo sob
a denominação de “folkcomunicação
visual”. A intenção é
a de agrupar as expressões propriamente
lingüísticas àquelas outras
que embutem representações pictóricas
e demais símbolos visuais.Assim sendo,
tratamos de identificar, no bojo de cada “gênero”
e de cada “formato”, quais os “tipos”
que possuem afinidades simbólicas.
A
partir dos indicadores bibliográficos
disponíveis nos mais recentes estudos
folkcomunicacionais (GOBBI, 2004), ampliamos
o elenco original (MARQUES DE MELO, 1979), justamente
para dar conta de um sistema de comunicação
que adquiriu maior complexidade nas interfaces
que faz dinamicamente com o sistema hegemônico
da “comunicação massiva”
(BELTRÃO & QUIRINO, 1986) e com o
sistema histórico da “comunicação
erudita” (BELTRÃO, 1972). Os resultados
obtidos através do levantamento das palavras-chave
correspondentes aos “tipos folkcomunicacionais”
referenciadas pelo Google, a partir do seu estoque
de fontes digitalizadas, permitiram constatar
as seguintes evidências:
Tabela 1
Referências agrupadas segundo os gêneros
folkcomunicacionais *
*
Levantamento realizado no Google (junho, 2005)
Gêneros
folkcomunicacionais....N.A................ %
Folkcomunicação
oral............. 146.389...........15.2
Folkcomunicação visual...........
351.972 .........36.7
Folkcomunicação icônica ........
10.757............ 1.1
Folkcomunicação cinética
........451.773.......... 47.0
Total
960.891 100.0
Chama atenção o volume representando
pelo gênero cinético (quase metade
do espaço total) e pelo gênero visual
(33.9 %). Juntos, eles significam aproximadamente
8 de cada 10 referências acumuladas.
Verificamos,
em ambos os casos, a prevalência de alguns
formatos singulares, ostensivamente desnivelados
em relação à média
das manifestações congêneres.
Essa tendência confirma-se também
no interior dos gêneros minoritários:
o tipo que encabeça a lista de referências
no interior de cada gênero ocupa espaços
que variam de dois terços (caso do gênero
icônico) a metade (casos dos gêneros
oral e musical).
Quais
os tipos folkcomunicacionais que conquistam mais
espaço na internet ?
Esse
panorama pode ser esboçado com maior nitidez
a partir da composição dos tipos
majoritários no interior de cada gênero.
Vamos
observá-lo através das tabelas que
seguem, embora a comparação desses
tipos majoritários com os minoritários
possa ser feita nas tabelas completas, anexadas
ao presente trabalho.
Tabela
2 - Gênero da Folkcomunicação
oral
Principais tipos e seus números de referências
Lenda..... 36.400
Canto de trabalho..... 30.400
Trova..... 23.300
Choro..... 21.100
Baião..... 8.920
Tabela
3 - Gênero da Folkcomunicação
visual
Principais tipos e seus números de referências
Tatuagem..... 327.000
Literatura de cordel..... 10.300
Santinhos de propaganda..... 1.440
Xilogravura popular..... 1.290
Abaixo assinado..... 1.270
Tabela
4 - Gênero da Folkcomunicação
icônica
Principais tipos e seus números de referências
Ex-voto..... 7.940
Amuletos..... 799
Presépio..... 788
Boneco de barro..... 388
Brinquedo artesanal..... 375
Tabela
5 - Gênero da Folkcomunicação
cinética
Principais tipos e seus números de referências
Funk carioca..... 143.000
Rap paulista..... 57.200
Vaquejada..... 52.600
Forró..... 25.700
Comício político..... 24.000
Se as tabelas anteriores mostram como os diversos
tipos estão relacionados, por ordem de
grandeza, com os seus congêneres, dentro
de cada gênero, torna-se indispensável
ultrapassar essa relativização categorial
para perceber claramente quais os tipos que possuem
maior densidade nos acervos documentais referenciados
pela Internet.
Vamos
construir, a seguir, uma pirâmide dos tipos
mais referenciados em cada gênero, retirando,
porém, as fronteiras que os separam tematicamente
Tabela
6 - Formatos mais referenciados na Internet (por
ordem de relevância quantitativa no interior
de cada gênero folkcomunicacional)
Principais tipos e seus números de referências
Tatuagem.....
327.000
Funk carioca..... 143.000
Rap paulista..... 57.200
Vaquejada..... 52.600
Lenda..... 36.400
Canto de trabalho..... 30.400
Forró..... 25.700
Comício político..... 24.000
Choro..... 21.100
Literatura de cordel..... 10.300
Baião
8.920
Ex-voto..... 7.940
Santinhos de propaganda..... 1.440
Xilogravura popular..... 1.290
Abaixo assinado..... 1.270
Cantoria.....
848
Amuletos..... 799
Presépio..... 788
Boneco de barro..... 388
Brinquedo artesanal..... 375
Impressiona,
nesse quadro comparativo, a importância
quantitativa que assumem os tipos mais sintonizados
com as demandas culturais dos jovens (clientela
principal da Internet). Ele confirma, de certo
modo, a tendência já mapeada por
BELTRÃO (1980: 40), que identificou, como
agentes/usuários principais da folkcomunicação,
no final do século passado, “os grupos
culturalmente marginalizados” da sociedade,
engrossando aqueles “contingentes de contestação
aos princípios, à moral ou à
estrutura social vigente”.
Não
é sem razão de ser que tipos pouco
ancorados nas raízes históricas
da cultura brasileira – como as tatuagens,
o funk carioca ou o rap paulista assumem a vanguarda
folkcomunicacional neste novo milênio. A
eles se agregam os tipos consubstanciados naquelas
aspirações de lazer coletivo, excitante
e módico a um só mesmo tempo –
como a vaquejada e o forró -, desfrutado
ao som de ritmos mestiços - como o choro
e o baião.
Destacam-se
também os tipos que podem traduzir gritos
de protesto ou lamento das camadas segregadas
pelos preconceitos das elites – como os
comícios políticos, os abaixo assinados,
os santinhos de propaganda ou os cantos de trabalho.
Trata-se,
no conjunto, de tipos que refletem inegavelmente
os traços daquela “moderna tradição”
a que se referia Renato ORTIZ (1988), determinantes
da nova fisionomia da sociedade brasileira, hoje
mais influenciada pelas correntes culturais made
in USA.
Persistem,
contudo, diversos formatos e tipos folkcomunicaacionais
ancorados nas tradições latinas
ou ibéricas, como as lendas, a literatura
de cordel, a cantoria e a xilogravura popular.
Da mesma forma, continuam vigentes, modos de expressão
legitimados pela religiosidade rústica
– como os ex-votos, os amuletos e os presépios.
Embora com menor intensidade, aparecem ainda formatos
lúdicos como os bonecos de barros e os
brinquedos antesanais.
A ponta do iceberg
Os
dados coligidos através desta pesquisa
exploratória sugerem desdobramentos empíricos,
analíticos ou reflexivos. Eles foram tecidos
justamente com a intenção de motivar
outros pesquisadores, situados em distintos espaços
geográficos, a prosseguir nesse itinerário,
elucidando enigmas ou interpretando contrastes.
Reiteramos
que, embora exegetas apressados tenham considerado
as nossas tradições populares como
resíduos em extinção, na
verdade o estudo da folkcomunicação
subsiste amplamente, perdurando e renovando-se
neste novo milênio.
Capaz
de potencializar o acervo cognitivo e a bagagem
cultural dos grupos marginalizados e dos contingentes
excluídos, a rede mundial de computadores
propicia condições para a atualização
dinâmica desta nova disciplina. No seu bojo,
os gêneros, formatos e tipos folkcomunicacionais
fluem regularmente através da web. Sem
perder as identidades que lhes dão sentido
histórico e vigor intelectual, eles ganham
difusão além das fronteiras em que
germinaram e floresceram.
Justamente
em função da transparência,
intensidade e diversidade adquiridas pelos fenômenos
folkcomunicacionais, novos estudos são
necessários para entender melhor sua dinâmica
na sociedade digital. Trata-se de um desafio que
pode ser enfrentado pelos jovens pesquisadores,
quase sempre desejosos de explorar objetos ainda
em fase de configuração no organismo
social.
Nessa
corrente já se alinham alguns pesquisadores
brasileiros. Rosângela MARÇOLA (2002)
procura entender de que forma os “contadores
de histórias” disseminam mitos e
lendas através da Internet. Aparecida Ribeiro
dos SANTOS e Lana Cristina Nascimento dos SANTOS
(2002) exploram os territórios ali ocupados
pelas “religiões populares”.
Por sua vez, Daniel GALINDO, Celeste RIBEIRO e
Vânia Braz de OLIVEIRA (2005) desvendam
as estratégias usadas pelos governos locais
no sentido de fomentar o turismo municipal, seduzindo
visitantes através do potencial folclórico
das respectivascidades.
Contudo,
somente através da realização
de análises comparativas será possível
construir generalizações suscetíveis
de credibilidade. Ao externar convite aos participantes
da V Bienal Iberoamericana de Comunicação
para que incluam objetos folkcomunicacionais em
suas agendas investigativas, nossa meta é
construir um mapa ibero-americano dessas formas
de expressão popular.
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